
Os principais veículos de comunicação do Piauí abandonaram o jornalismo crítico para exercer uma cobertura laudatória do governo, funcionando hoje como um mero braço institucional do poder. Esse cenário atual desonra o passado de uma imprensa que outrora foi altiva e corajosa. Vale lembrar o papel crucial dos profissionais que enfrentaram o período mais sombrio do estado, quando o crime organizado estava encastelado no próprio poder público nas décadas de 1980 e 1990. Foi a força do jornalismo independente que investigou, deu voz às famílias das vítimas e escancarou os assassinatos e os esquemas comandados pelo coronel Correia Lima, forçando as autoridades nacionais a agirem. Naquela época, a imprensa arriscava a vida para solucionar crimes e proteger a sociedade, bem diferente da passividade que vemos agora.
Contrato em vez de pauta
A publicidade oficial compra o silêncio das redações, e o resultado é uma imprensa laudatória financiada pelo próprio contribuinte para elogiar quem deveria fiscalizar. Historicamente, foram as investigações jornalísticas que revelaram grandes esquemas de desvio de verbas na merenda escolar e fraudes em licitações de estradas que nunca saíram do papel. Hoje, com mais de 80% dos meios de comunicação dependentes do dinheiro público, essas pautas simplesmente sumiram, substituídas por releases oficiais e propagandas maquiadas de notícia que tentam vender um Piauí fictício.
O silêncio como produto
Omitir escândalos também é uma escolha editorial, pois a cobertura laudatória não precisa necessariamente mentir, basta ela não noticiar o que incomoda os poderosos. No passado, quando o Piauí sofria com crises severas ou quando casos como o da Doméstica, do carteiro Helzano, dos jornalistas Helder Feitosa e Donizetti Adalto chocaram o estado, revelando as entranhas da política e do crime, a imprensa não recuou e cobrou a elucidação dos fatos dia após dia. Atualmente, o silêncio impera, e problemas crônicos de gestão e corrupção são varridos para debaixo do tapete em troca de contratos publicitários polpudos que blindam os gestores.
O desserviço das TVs abertas
A espetacularização tomou o lugar da investigação, e o contraponto mais duro deve ser feito contra as emissoras de TV aberta do estado. Em vez de educar e formar cidadãos conscientes, esses canais promovem uma verdadeira manipulação da informação. Eles usam o sofrimento da periferia e a violência urbana como entretenimento popular, criando programas policiais que exploram a miséria humana em troca de audiência e patrocínio. Essa superexposição do crime menor serve como uma cortina de fumaça perfeita, pois enquanto a população se distrai com o roubo de um celular no bairro, os grandes escândalos de colarinho branco e os desvios de milhões dos cofres públicos são completamente ignorados pelas telas.
A audiência como refém
O cidadão piauiense consome apenas o que o poder e as grandes corporações de mídia querem que ele saiba, de modo que essa imprensa chapa-branca e sensacionalista priva a população do direito básico à formação cidadã. Sem o contraponto e o debate inteligente, o telespectador é deseducado e perde a capacidade de julgar a realidade política do estado. Casos emblemáticos de má aplicação de recursos só chegam ao conhecimento do público quando explodem em operações da Polícia Federal, evidenciando que a televisão local perdeu totalmente o protagonismo de descobrir a verdade por iniciativa própria.
A necessidade de fiscalizar os fiscais
Quando a grande imprensa capitula e vira laudatória, o espaço do jornalismo independente, dos portais alternativos e das vozes corajosas na internet deixa de ser apenas uma opção e passa a ser uma necessidade democrática urgente. É preciso resgatar a coragem dos jornalistas que não se dobravam ao poder econômico e nem se vendiam por cargos ou verbas publicitárias. O Piauí precisa urgentemente de uma imprensa que volte a fiscalizar os poderes públicos com o mesmo rigor com que o cidadão trabalha duro para pagar os seus impostos.
CRÔNICA 4 Fogueira de São João no Boqueirão do Adolfo
REPÚBLICA O silêncio de Roma, o escândalo Master e o despertar da esperança no STF
CRÔNICA 3 O Tempo e o Vento no Bairro de Fátima
Mín. 22° Máx. 34°