
Dizem os manuais de anatomia que o corpo humano é um arranjo de ossos, músculos e vísceras projetado para nos deslocar de um ponto A a um ponto B. Bobagem. O corpo é, na verdade, a carcaça corajosa que aceitou a indigesta missão de carregar a mente que pensa. E pensar, nestas latitudes tropicais, é um exercício de alta performance que tensiona os tendões e exige uma coluna vertebral de idoneidade hercúlea.
Minhas crônicas e artigos nascem exatamente aí, nessa mecânica biológica de transformar o incômodo em tinta. Cada texto que ponho no mundo não é um panfleto estático; é um organismo vivo, cujo caminhar depende da sustentação de suas pernas: a memória histórica e a comparação civilizatória. São elas que nos impedem de cair no primeiro buraco do esquecimento ou de tropeçar na ingenuidade de achar que o absurdo de ontem nasceu hoje de manhã. Sem esse caminhar firme pelo passado, a escrita perde o prumo, vira mero espasmo.
O tronco dessa estrutura, onde o coração bate e os pulmões buscam ar puro, é a responsabilidade cívica. É o eixo que se recusa a curvar ante a erosão moral da política brasileira e, sobretudo, ante a anestesia coletiva que passou a tratar o absurdo como rotina. Quando escrevo sobre as traições partidárias, a banalização do poder e a melancólica confusão entre o que é Estado e o que é projeto estritamente pessoal, sinto o peito inflar. Não por vaidade, longe disso, mas pela necessidade vital de oxigenar o debate. É um apelo direto a quem lê: um convite para que o leitor mude de postura, estique os músculos e saia da confortável poltrona de espectador para assumir-se, finalmente, como parte integrante do problema, e da solução.
Os braços e as mãos representam o vocabulário, o esforço diário para alcançar uma densidade intelectual que não seja arrogante, mas acolhedora. São as mãos que buscam o diálogo com a história, o direito e a ética pública, mas que não se esquecem de calijar-se nas novidades acessíveis do cotidiano, abastecendo-se na feira, na rua, no país real. É o toque que busca a comunicabilidade pura para que os olhos possam refletir, lá no fundo da alma, o retrato honesto de um país ambivalente, que há séculos parece não ter decidido se quer ser uma nação soberana ou apenas um território convenientemente administrado por oligarquias de ocasião.
Há uma profunda gratidão em poder operar essa máquina de pensar aqui, no meio em que vivo e que tanto prezo. Contribuir com a comunidade através da palavra escrita, buscando despertar a consciência coletiva com argumentos e não com slogans fáceis, é um privilégio leve, que conduz a vida com graça. Sonho com o dia em que meus textos funcionem como espelhos honestos.
Contudo, se a anatomia humana insiste em projetar o corpo como o veículo da mente, a nossa sociologia prática refinou o modelo. Deu à luz uma criatura fascinante, que habita as mesmas ruas onde busco inspiração: o Homúnculo Cívico. Trata-se de um ser dotado de órgãos perfeitamente funcionais, visão em dia, mas afetado por uma curiosa e seletiva cegueira de proximidade. É o indivíduo que, operando com espantosa acuidade visual para os horizontes distantes, é incapaz de enxergar o óbvio instalado a pouco mais de um palmo do próprio nariz. Para esses exemplares, a realidade não é um fato; é uma inconveniência que insiste em borrar o cenário.
Olhando ao redor, percebe-se que a nossa anestesia coletiva operou um verdadeiro milagre evolutivo nesse cidadão contemporâneo: a atrofia completa da capacidade de indignação genuína. Desenvolveu-se uma flexibilidade moral digna de contorcionistas de circo. O tronco dessa criatura hipotética, onde deveria pulsar a tal responsabilidade cívica, vive espremido em uma agonia muda. É um espetáculo de engenharia existencial: o sujeito espreme-se entre o espasmo estético da indignação, geralmente manifestado em jantares bem regados ou indignações virtuais e o limite físico e moral de sua própria conveniência.
A indignação é vasta, ecumênica, barulhenta, até que o enfrentamento do problema ameace descer e esbarrar no próprio umbigo. Ali, na fronteira exata do interesse privado, cessa o dever público e começa o instinto de preservação do privilégio.
Os braços e as mãos, que na escrita buscam a densidade do diálogo com a ética, servem ao homem comum para a nobre arte da terceirização. Aponta-se o dedo para a traição política enquanto as mesmas mãos assinam as pequenas concessões diárias do cotidiano. Normaliza-se o erro com o verniz da sobrevivência; trata-se o absurdo como rotina para não ter que admitir que o território que habitamos só continua sendo um balcão de negócios porque o silêncio social paga bons dividendos. Transformamos o absurdo rotineiro em uma espécie de lubrificante social. O silêncio tornou-se a nossa postura de ioga favorita, exige um equilíbrio monumental para fingir que não se está vendo nada.
Há uma beleza trágica na forma como o homem contemporâneo gerencia sua miopia voluntária. Não se trata de burrice, a inteligência é ampla, mas de um requintado método de autodefesa. Como culpar o cidadão que se recusa a ver o óbvio a um palmo do nariz? Afinal, enxergar com clareza exigiria dele uma atitude. E a atitude, como se sabe, costuma desorganizar a rotina. É muito mais refinado manter-se na confortável posição de espectador indignado, usufruindo do luxo de criticar o sistema enquanto se aproveita das brechas que ele oferece.
É comovente assistir à ginástica intelectual daquele que clama por moralidade, mas cuja coragem expira exatamente na marca do próprio umbigo. Dali para baixo, a pátria que se dane; dali para cima, que se salve a pose.
Escrever para esse público é tentar operar uma catarata de conveniências. Resta saber se, ao final, quando o espelho honesto for finalmente colocado diante dessas criaturas, elas terão a coragem de sustentar o olhar ou se apenas culparão o reflexo por ser tão rudemente realista. Afinal, para quem passou a vida tratando o país como um território administrado para seu bel-prazer, descobrir-se parte da engrenagem do atraso deve ser, de fato, um incômodo insuportável para o estômago. Convenhamos: para que se dar ao trabalho de carregar uma mente que pensa e incomoda, se é infinitamente mais confortável e esteticamente seguro, comportar-se como um belo, pacífico e absolutamente inanimado objeto de decoração da República?
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