
Meu possante quebrou. Novinho em folha, bonito, cheio de tecnologia, tração nas quatro rodas e fabricado sob a promessa de enfrentar lama, areia, pedra, serras, estradas ruins e praticamente todas aquelas adversidades que a indústria automobilística costuma reunir sob a elegante expressão off-road. O fabricante provavelmente submeteu o carro aos mais rigorosos testes, levou o protótipo para desertos, montanhas, estradas enlameadas, terrenos pedregosos e sabe Deus onde mais. Só esqueceu de uma etapa fundamental antes de colocá-lo no mercado brasileiro: dar umas voltinhas pelas ruas de Teresina.
Não resistiu.
Entre canaletas, coxias, lombadas, buracos, depressões, remendos sobre remendos e aqueles misteriosos montículos de asfalto que brotam no meio da pista e que nós, por absoluta incapacidade de encontrar uma classificação técnica mais adequada, chamamos simplesmente de mondrongos, meu valente quatro por quatro acabou pedindo arrego. Foi derrotado sem nunca ter entrado numa trilha. Não enfrentou o Jalapão, não atravessou o Pantanal alagado, não subiu serra de pedra, não atolou na lama e tampouco precisou cruzar algum riacho no interior do Piauí. Sucumbiu em pleno perímetro urbano de uma capital brasileira.
Foi então que me lembrei do Japão.
Há alguns anos, o mundo assistiu perplexo a um terremoto devastador atingir aquele pequeno arquipélago. A terra tremeu com violência, veio um tsunami colossal, cidades foram destruídas, casas e automóveis pareciam brinquedos arrastados pela água, estradas desapareceram e uma usina nuclear entrou em colapso, espalhando o temor da contaminação radioativa. Era uma tragédia de proporções extraordinárias, daquelas diante das quais o homem descobre rapidamente que toda a sua tecnologia ainda é muito pequena quando a natureza resolve mostrar sua força.
No meio daquela devastação, uma coisa me impressionou particularmente. Uma estrada severamente danificada foi recuperada em tempo extraordinariamente curto. Máquinas chegaram, equipes trabalharam, o pavimento foi recomposto e o tráfego voltou à normalidade. O mais curioso, para os nossos padrões tropicais, foi assistir às autoridades e aos responsáveis pela recuperação prestando explicações e desculpando-se pelos transtornos causados à população.
Desculpas.
Ao contribuinte.
Aquilo me pareceu quase ficção científica.
Imaginei a mesma cena por aqui e confesso que tive vontade de rir. Não porque sejamos incapazes de reconstruir uma estrada, evidentemente. Somos um país de grandes engenheiros, excelentes técnicos e empresas capazes de executar obras extraordinárias. A diferença está naquela misteriosa relação entre o dinheiro público, o prazo e a responsabilidade por entregar aquilo que foi prometido.
No Japão, um terremoto destrói a estrada e começa imediatamente uma corrida para devolvê-la ao cidadão. No Brasil, muitas vezes começa outra aventura: descobrir primeiro de quem é a estrada.
É municipal? Estadual? Federal? Foi municipalizada? Estadualizada? Existe convênio? O recurso veio de Brasília? A manutenção é da prefeitura? A obra é do Estado? Quem licitou? Quem fiscaliza? Quem recebeu?
Quando finalmente se descobre o pai da criança, o buraco já está entrando na adolescência.
Depois vem o projeto, a licitação, a ordem de serviço, a fotografia da ordem de serviço, o discurso da ordem de serviço, a placa anunciando a ordem de serviço e, se tudo correr bem, algum tempo depois chega a própria obra. Então aparecem os aditivos, as chuvas, a falta de material, o reequilíbrio econômico-financeiro, uma mudança de secretário, outra de governo e aquelas circunstâncias imponderáveis que parecem acometer com espantosa frequência justamente as obras financiadas pelo contribuinte.
Teresina talvez seja um caso particularmente interessante. A cidade nasceu planejada ainda no Império, por iniciativa do Conselheiro Saraiva, e recebeu seu nome em homenagem à imperatriz Teresa Cristina, esposa de Pedro II. Há, portanto, uma deliciosa ironia histórica nisso tudo: uma cidade que nasceu planejada passou boa parte de sua vida adulta tentando alcançar o próprio crescimento.
A capital expandiu-se, antigas rodovias foram engolidas pela zona urbana, bairros surgiram em todas as direções, o número de veículos explodiu e intervenções que deveriam acompanhar naturalmente esse desenvolvimento transformaram-se em epopeias administrativas. Pequenos trechos de duplicação das entradas da cidade atravessaram governos até serem concluídos. Aqui, às vezes, quatro quilômetros não são uma distância. São uma era geológica.
Talvez isso explique por que desenvolvemos técnicas próprias de manutenção viária.
O Japão tem engenharia sísmica. Nós temos a engenharia do mondrongo.
É uma tecnologia de execução aparentemente simples. Chega o caminhão com a massa asfáltica, o material é despejado sobre o trecho danificado, surge um trabalhador munido de uma pá e, depois de algumas providências elementares, entra em ação a etapa mais democrática de todo o processo: a compactação popular.
O poder público fornece a massa. O motorista fornece o acabamento.
Passa um ônibus e compacta um lado. Vem uma caminhonete e comprime o outro. Um automóvel mais baixo sacrifica o protetor do cárter em benefício da coletividade. Depois de milhares de veículos, sol forte e algumas chuvas, aquele material finalmente encontra sua forma definitiva. Nem sempre a forma desejada, é verdade, mas uma forma.
Nasce então o mondrongo.
O mondrongo é uma criação fascinante porque desafia todas as classificações conhecidas da engenharia. Não é exatamente uma lombada, porque não possui geometria definida. Não chega a ser um buraco, porque cresce para cima. Também não pode ser chamado propriamente de remendo, porque às vezes consegue produzir no veículo impacto maior do que o defeito que deveria corrigir. É uma espécie de acidente geográfico produzido pelo homem, uma pequena formação montanhosa urbana que surge onde antes havia apenas uma imperfeição no asfalto.
Teresina criou seu próprio relevo.
Temos ainda as canaletas, algumas tão profundas e abruptas que atravessá-las exige experiência, paciência e certo conhecimento de trigonometria. O motorista reduz a velocidade, aproxima-se cuidadosamente, coloca uma roda, depois a outra, calcula mentalmente o ângulo de ataque e inicia a travessia. Por alguns segundos, deixa de ser condutor e transforma-se em piloto de expedição.
Vem o primeiro impacto.
Depois o segundo.
Se nenhuma peça ficar pelo caminho, a operação foi bem-sucedida.
E há os radares. Muitos radares.
Antes que alguém interprete mal, fiscalização de velocidade é necessária. Radar corretamente instalado, sinalizado e utilizado como instrumento de segurança salva vidas. O que desperta certa curiosidade no cidadão é perceber como desenvolvemos uma capacidade tecnológica extraordinária para identificar um automóvel que ultrapassa determinado limite de velocidade, fotografar sua placa, processar a infração e fazer a cobrança chegar ao proprietário, enquanto continuamos aparentemente desarmados diante de um buraco que permanece semanas ou meses no mesmo lugar.
O radar enxerga sua placa a dezenas de metros.
O buraco, coitado, consegue viver no anonimato.
E foi nesse sofisticado ecossistema viário que meu possante encontrou seu destino. Começou com um pequeno ruído. Depois veio outro. Uma batida na suspensão, uma folga aqui, outra acolá, até que a oficina apresentou o diagnóstico. O guerreiro estava ferido.
Fiquei olhando para ele com uma mistura de tristeza e admiração. Afinal, não é qualquer cidade que consegue derrotar um veículo com vocação off-road sem sequer obrigá-lo a sair do asfalto.
Talvez a culpa tenha sido minha. Interpretei mal a propaganda. Quando o fabricante afirmou que o carro havia sido projetado para “condições extremas”, imaginei que isso incluísse as ruas de Teresina. Provavelmente estavam falando apenas de neve, lama, areia, montanhas, pedras e desertos.
Teresina deve estar numa categoria superior.
A graça, entretanto, termina exatamente onde começa a conta da oficina. Porque cada amortecedor danificado, cada pneu estourado, cada roda empenada, cada terminal com folga e cada suspensão castigada representam dinheiro retirado do bolso de alguém que já havia colocado a mão nesse mesmo bolso para pagar impostos. E aqui está talvez a maior ironia de todas: o contribuinte paga para ter uma rua em boas condições e, quando ela não está em boas condições, paga novamente para reparar o carro danificado pela rua que ele já pagou para conservar.
É uma espécie de tributação indireta sobre a suspensão.
O cidadão financia a via e depois financia as consequências da via.
Por isso, embora esta seja uma crônica e a ironia nos permita rir das nossas próprias desventuras, existe por trás dela uma questão elementar de administração pública. Asfalto bem executado, drenagem adequada, sinalização, manutenção preventiva e fiscalização técnica não são favores de prefeito, governador ou secretário. São serviços públicos pagos antecipadamente por uma sociedade que trabalha, produz riqueza e sustenta uma máquina estatal cara.
Não deveria haver nada de ideológico nisso. Buraco não é de direita nem de esquerda. Mondrongo não possui filiação partidária. Amortecedor quebrado não pergunta em quem o motorista votou. Uma cidade bem cuidada deveria ser apenas consequência normal de uma administração eficiente.
Talvez seja exatamente por isso que aquela antiga reportagem sobre o Japão tenha permanecido tanto tempo na minha memória. Depois de um terremoto de proporções históricas, eles correram para reconstruir aquilo que a natureza havia destruído e ainda acharam necessário prestar contas à população.
Nós somos mais modestos.
Não precisamos de terremoto.
Conseguimos produzir nossos próprios acidentes geográficos.
Continuo, portanto, com meu possante na oficina e uma importante lição aprendida. Na próxima vez em que trocar de carro, não vou mais perguntar sobre potência, torque, controle de tração, ângulo de ataque, suspensão independente ou capacidade off-road. Também não me interessará saber se o veículo foi testado no deserto do Saara ou nas montanhas do Colorado.
Farei apenas uma pergunta ao vendedor:
— Meu amigo, isso aí aguenta Teresina?
Se ele hesitar, agradeço e vou embora.
Talvez seja finalmente a hora de procurar um tanque de guerra.
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