
A história das civilizações não guarda a memória dos homens pela quantidade de verbas que manusearam, pelos aparatos publicitários que financiaram ou pelo tempo em que conseguiram monopolizar as engrenagens da máquina pública. O julgamento do tempo é severo e seletivo. Ele apaga os nomes dos simples operadores da conveniência e imortaliza apenas aqueles que enxergaram no exercício do poder não um banquete de privilégios, mas uma rigorosa missão de existência.
Quando olhamos para a trajetória de lideranças como Mahatma Gandhi, Nelson Mandela ou Dom Pedro II, identificamos um traço em comum que os separa vertiginosamente dos políticos da atualidade: a compreensão de que a vida pública exige a abdicação do ego em favor de um bem infinitamente maior. Gandhi descalçou os sapatos e vestiu a simplicidade para libertar uma nação; Mandela transformou 27 anos de cativeiro em pedagogia de reconciliação nacional; Dom Pedro II, com sua austera postura republicana à frente de um império, dizia preferir os livros ao trono e gastou sua existência servindo ao Brasil, morrendo no exílio sem ter acumulado riquezas pessoais.
Em contraste com essa linhagem de homens públicos, o cenário contemporâneo no Piauí apresenta o triste espetáculo de uma liderança que confunde a arrogância da inteligência com a grandeza do espírito.
O Desperdício da Oportunidade Histórica
O grupo político que hoje domina o Palácio de Karnak, capitaneado pelo Governador Rafael Fonteles e sua corte de tecnocratas conhecidos como "Rafaboys", recebeu do povo piauiense e do destino uma oportunidade rara. Armados com diplomas de excelência, raciocínio lógico apurado e a máquina do Estado integralmente à disposição, esses novos líderes poderiam ter escolhido o caminho da transformação real, escrevendo seus nomes na história do Nordeste e do Brasil pela via do estadismo. Contudo, optaram pelo atalho vulgar da ganância pelo poder pelo próprio poder.
O desperdício mais doloroso de uma gestão não é apenas o financeiro, mas o desperdício do talento humano colocado a serviço da pequenez política. Quando mentes brilhantes se dedicam exclusivamente a projetar hegemonias partidárias, desenhar manobras eleitorais e perpetuar seu grupo no comando, a inteligência deixa de ser luz e passa a ser cumplicidade com o atraso.
O dinheiro público escorre pelo duto da vaidade. Aparatos de propaganda caríssimos desenhados para vender um "Piauí do futuro" que não existe na rotina dos hospitais nem na segurança dos bairros; Inchaço da máquina pública para acomodar o apadrinhamento de aliados e garantir fidelidade política; Projetos vitrine de alto apelo publicitário, mas de escasso impacto na erradicação da miséria estrutural que ainda sufoca o interior do estado.
A Síndrome da Superioridade e a Cegueira dos "Novos Líderes"
Há uma perigosa ilusão que habita os gabinetes climatizados do poder estadual: a de que o domínio de planilhas e o jargão corporativo tornam governantes biologicamente ou moralmente superiores ao cidadão comum. Essa soberba tecnocrática faz com que a nova casta piauiense ignore as lições mais elementares do passado.
Julgam-se imunes ao desgaste do tempo e incapazes de errar. Esquecem-se de que a História está repleta de regimes e grupos "iluminados" que caíram precisamente porque se desconectaram do sentimento e da dor daqueles que governavam. A ganância de manter o controle sobre o Estado a qualquer custo gera uma blindagem moral:
O erro passa a ser justificado em nome da "eficiência da gestão".
O uso do Estado para o fortalecimento do grupo torna-se atitude vista como "habilidade política".
A crítica honesta é tratada com desdém, como se partisse de mentes incapazes de compreender a "complexidade" do projeto em curso.
Essa recusa em olhar para os exemplos de Gandhi, Mandela ou Dom Pedro II expõe o verdadeiro drama da nossa elite política: a ausência de vocação. Governa-se para a própria turma, para o fortalecimento da sigla e para o enriquecimento veloz dos que estão no círculo de confiança, enquanto o povo piauiense continua pagando a conta da festa com impostos altos e serviços precários.
O Julgamento Implacável do Tempo
A verdadeira grandeza na política não é herdada, não é comprada com marketing e tampouco é garantida por coeficientes de inteligência. A grandeza nasce do desprendimento, da humildade e da empatia.
Os governantes que entram para a história como estadistas deixam como legado a elevação moral de seu povo, a solidez das instituições e a melhoria palpável da vida dos invisíveis. Já aqueles que usam a máquina pública apenas para satisfazer a vaidade pessoal e perpetuar um projeto de dominação deixam para trás apenas ruínas fiscais, desconfiança institucional e o desprezo da posteridade.
Se a atual liderança do Piauí continuar teimando em ignorar a História e persistir em usar a inteligência técnica apenas para articular a permanência no poder, deixará para o estado o mais trágico dos legados: a lembrança de um tempo em que se teve tudo para transformar uma terra, mas se preferiu a pequenez de um projeto privado de poder.
O tempo, contudo, é um juiz incorruptível. E ele haverá de mostrar que nenhuma propaganda é capaz de disfarçar a pequenez daqueles que governaram para si mesmos, ignorando que o poder passa, mas a vergonha ou a glória das escolhas morais permanece para sempre.
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