
A história do desenvolvimento humano demonstra que o conhecimento, quando desprovido de um compromisso com o bem comum, transforma-se na mais requintada ferramenta de dominação. No Piauí, a narrativa política dominante das últimas duas décadas tentou construir uma ilusão perfeita: a transição de um suposto modelo oligárquico tradicional para uma era de modernidade, técnica e eficiênte. Vendeu-se ao cidadão a ideia de que a superação do atraso viria pelas mãos de novos protagonistas políticos.
Contudo, ao despirmos o discurso das suas roupagens publicitárias, o que resta no horizonte piauiense não é o desenvolvimento estrutural, mas a consolidação de uma "politicagem" sofisticada, que trocou o coronelismo de espora pela arrogância tecnocrática. Para compreendermos a profundidade desse fenômeno, é preciso olhar para a gênese daqueles que hoje ocupam as engrenagens centrais do poder estadual.
A sociedade piauiense sempre olhou com legítimo orgulho para o Instituto Dom Barreto. Em um estado historicamente castigado pela negligência estatal e por índices sociais dolorosos, o colégio firmou-se como uma ilha de excelência acadêmica nacionalmente reconhecida.
Ali, gerações aprenderam o rigor do pensamento lógico, a precisão da matemática, a fluidez do idioma e a disciplina do estudo. Ninguém em sã consciência ousa contestar a capacidade da instituição em formar mentes brilhantes. O Dom Barreto enche o peito do piauiense porque prova que a inteligência da nossa terra não deve nada a centro algum do mundo.
O Limite da Técnica: A Distinção Entre Cognição e Caráter
O drama coletivo começa exatamente onde a responsabilidade das instituições de ensino termina. As escolas mais rigorosas do planeta podem ensinar equações complexas, geografia econômica e gramática irretocável, mas nenhuma delas possui a fórmula para imprimir o caráter na alma humana. O caráter não é uma disciplina de matriz curricular; é uma construção individual, forjada no núcleo familiar, maturada pela autocrítica e revelada pelas escolhas morais de cada indivíduo diante das tentações do mundo real.
O Governador Rafael Fonteles e o grupo que o cerca, carinhosamente apadrinhados no debate público pelo termo "Rafaboys", carregam no currículo o selo inquestionável da elite intelectual dom-barretina. Aprenderam muito nas salas de aula. Contudo, o exercício do poder revelou uma lacuna trágica em sua formação: a assimilação da História como lição viva de humanidade. Aprenderam a calcular retornos econômicos e a desenhar organogramas eficientes, mas parecem ter esquecido as páginas da história que ensinam o destino inevitável dos governantes que tratam a máquina pública como extensão privada da sua própria turma.
A excelência técnica sem compromisso moral produz gestores altamente capacitados para justificar privilégios, mas absolutamente incapazes de sentir a dor da desigualdade que deveriam combater.
Ao se encastelarem nas secretarias e órgãos estratégicos do estado, essa elite de antigos colegas de bancada e mesas de bar transformou o conhecimento técnico, que deveria ser um instrumento de libertação do povo, em um mecanismo de autopromoção e enriquecimento acelerado. Há uma perversidade silenciosa quando a inteligência é colocada a serviço da manutenção do poder pelo próprio poder. Quando o domínio da máquina pública serve apenas para garantir o bem-estar de um grupo restrito, o conhecimento deixa de ser virtude e passa a ser cumplicidade.
A Contradição do Atraso Mantido sob o Discurso da Modernidade
A retórica governamental insiste na tese de que o Piauí vive uma revolução de gestão. Fala-se em inovação, digitalização, atração de investimentos e índices de eficiência. Todavia, a realidade concreta enfrentada pelo trabalhador comum nos bairros da capital e nos municípios do interior desmente o entusiasmo dos gabinetes climatizados. O estado permanece estruturalmente pobre, isolado em termos de logística decisiva e dependente de repasses federais para manter sua máquina funcionando.
A presença de lideranças que se vendem como inovadoras nada significou em termos de desenvolvimento estruturante. Substituiu-se a política tradicional pela politicagem tecnocrática, onde o marketing reluzente esconde a perpetuação das mesmas misérias.
A transição política liderada inicialmente por Wellington Dias e desdobrada no modelo atual de Rafael Fonteles prometia romper com os velhos vícios da dominação estadual. O que se viu, na prática, foi a substituição de velhas oligarquias por uma nova casta. Se antes o poder se legitimava pelo patrimonialismo rural, hoje ele se legitima pelo diploma de boas escolas e pelo jargão corporativo. Mas a essência do patrimonialismo permanece intocada: o Estado continua sendo visto como um espólio a ser dividido entre os "nossos", enquanto o contribuinte piauiense é chamado, ao final da festa, para pagar uma conta cada vez mais pesada.
A Inversão Moral e a Cultura do Apadrinhamento
Vivemos dias sombrios em que as estruturas do poder público parecem profundamente corroídas por uma cultura do conformismo moral. Impregnou-se no tecido social a perigosa ideia de que usar o Estado para beneficiar amigos, alavancar carreiras pessoais e enriquecer com velocidade é algo "normal", "ábil" e "lícito". O pragmatismo amoral elevou o espertalhão ao status de modelo de sucesso, enquanto o homem honesto, que cumpre seu dever com modéstia e retidão, é visto com desdém, quase constrangido por sua integridade.
Quando a convivência de bar e a cumplicidade de juventude se tornam os principais critérios de promoção na vida pública, o mérito republicano é destruído. A arrogância dos que se julgam superiores apenas por demonstrarem raciocínio lógico apurado ou fluência verbal cega-os para uma verdade universal: na política, o poder que não serve à missão de erguer os fracos é apenas vaidade passageira.
Os detentores do poder parecem ter esquecido que o verdadeiro julgamento histórico não é feito pelos pareceres técnicos que eles próprios encomendam, mas pela percepção silenciosa e dolorosa daqueles que sustentam o estado com seu suor. São as pessoas simples, os que dependem do hospital público sem remédio, da escola sem estrutura e da estrada esburacada, que dão vida longa ou destino curto às aventuras políticas.
O Resgate da Humildade e a Missão do Poder
O poder político não é propriedade privada; é uma missão temporária e sagrada delegada pelo povo. Ele só se justifica quando acompanhado pela consciência da própria finitude e pela responsabilidade de servir aos que mais precisam. Enquanto a vergonha moral, o rubor na face diante do erro e a humildade sincera de quem reconhece que depende do cidadão comum não habitarem os gabinetes do Palácio de Karnak, nenhuma modernização tecnológica será capaz de humanizar a gestão pública.
O Instituto Dom Barreto continuará a cumprir o seu papel brilhante na formação acadêmica dos seus alunos, e isso deve ser preservado. Mas os ex-alunos que optaram por ingressar na política precisam entender que a sociedade piauiense não lhes deve vassalagem em troca de seus currículos. Pelo contrário: àqueles a quem muito foi dado pela vida e pela educação, muito mais deve ser exigido em termos de ética, desprendimento e espírito público.
Se a inteligência dos "Rafaboys" servir apenas para sofisticar o saque aos cofres públicos e perpetuar um projeto de poder egoísta, ela não passará de um desperdício doloroso e de uma profunda traição às expectativas do povo do Piauí. A história é implacável com os arrogantes. O tempo mostrará que a verdadeira grandeza de um governante não se mede pela velocidade com que seus aliados enriquecem, mas pelo respeito genuíno com que ele trata a dignidade e o dinheiro daqueles que sustentam esta terra.
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