
Há quem diga que existe um porto separando o criador, Wellington Dias, da criatura, Rafael Fonteles. Os estilos são, de fato, distintos, em alguns aspectos, completamente diferentes. Mas uma pergunta precisa ser feita: como essas diferenças não foram percebidas ainda lá atrás, quando Rafael Fonteles já pavimentava sua caminhada rumo ao Palácio de Karnak?
O filho de Nazareno Fonteles já demonstrava personalidade própria. De peito estufado e adepto do bate-pronto, por vezes tratava interlocutores de maneira pouco compatível com aquela educação que todos lhe atribuem. Episódios de bate-boca com eleitores em plena rua ajudam a alimentar essa percepção.
Quem se propõe a exercer um cargo que depende diretamente do voto popular precisa compreender que o mandato não é propriedade de quem o exerce. É uma missão temporária, submetida permanentemente ao julgamento da população. Pode ser bem-sucedida ou não. E, quando surgem discordâncias, críticas ou insatisfações, cabe ao governante escutar onde estão os problemas e procurar compreender suas causas.
Não por acaso, ouve-se com frequência, passados três anos e meio do governo Rafael Fonteles, uma espécie de saudade do jeito manso de Wellington Dias. Wellington construiu ao longo dos anos uma característica política difícil de lhe negar: podia concordar ou discordar, atender ou não atender, mas dificilmente deixava de tratar seus interlocutores com educação.
Essa diferença de estilo talvez tenha consequências que ultrapassem a simples comparação entre personalidades.
O caso Themístocles e o custo político das escolhas
Outra característica recorrente da política piauiense são as rupturas e mudanças de lado que reaparecem de eleição em eleição.
Rafael Fonteles talvez tenha cometido um dos maiores riscos de sua ainda jovem carreira política ao afastar de sua composição eleitoral o vice-governador Themístocles Filho, um dos mais experientes articuladores políticos que o Piauí produziu nas últimas décadas.
Depois de uma longa trajetória parlamentar e de anos comandando a Assembleia Legislativa, Themístocles conhece como poucos os caminhos, atalhos e labirintos da política estadual. Sua retirada da chapa majoritária, portanto, dificilmente pode ser considerada um acontecimento irrelevante.
No lugar de uma liderança com essa experiência e capilaridade política, surge uma opção cuja principal identificação pública, até aqui, está muito mais ligada ao grupo político e administrativo próximo ao governador do que à existência de uma trajetória eleitoral própria. Washington Bandeira sem nenhuma experiência de gestão pública anterior, sem nunca ter sequer disputado uma eleição e sem nenhuma afinidade ou trato com os políticos.
E esse fenômeno chama atenção para outra característica do atual governo: a presença expressiva, em posições importantes da administração estadual, de integrantes de um círculo de confiança associado à trajetória acadêmica e profissional do governador, grupo que seus críticos passaram a chamar, de maneira irônica, de “rafaboys”.
O silêncio que precede as convenções
Talvez ainda mais impressionante seja a aparente calmaria das tradicionais lideranças políticas do Estado.
Estão todos muito calados.
Como pássaros na muda de penas, esperando que as asas estejam novamente prontas para voos seguros, antigas raposas da política piauiense observam silenciosamente o cenário antes das convenções partidárias.
Mas silêncio, em política, nem sempre significa concordância.
Há sinais de insatisfação e declarações públicas de correligionários do próprio campo governista demonstrando desconforto com determinados aspectos da condução política do Estado.
É justamente aí que começa a crescer uma pergunta inevitável: quando chegar a hora decisiva, todos aqueles que hoje aparecem formalmente reunidos estarão, de fato, trabalhando na mesma direção?
Ao que tudo indica, esta eleição poderá ser marcada por mudanças de posição, acomodações de última hora e pelas tradicionais “traições” que tantas vezes fizeram parte da história eleitoral piauiense.
Cada um cuidando do próprio barco
Wellington Dias, principal responsável político pela ascensão de Rafael Fonteles, demonstra estar concentrado sobretudo na agenda e na campanha nacional. Independentemente das justificativas, sua presença na campanha estadual não parece, até agora, reproduzir o protagonismo que muitos poderiam esperar daquele que foi o grande padrinho político do atual governador.
Júlio César, por sua vez, encontra-se diante de uma travessia política particularmente delicada e ainda precisa administrar a força crescente de seu filho, Georgiano Neto. Trata-se de uma liderança que já conquistou espaço próprio e merece ser considerada no tabuleiro estadual, embora, pela própria juventude política, ainda tenha etapas de amadurecimento pela frente.
O senador Marcelo Castro, dono de uma longevidade eleitoral impressionante e com mandatos sucessivos desde sua primeira eleição para deputado estadual, em 1982, encontra-se diante de outra batalha fundamental de sua trajetória: a própria reeleição.
Deputados federais e estaduais, como naturalmente acontece em disputas difíceis, também concentram esforços na preservação dos próprios mandatos. Cada candidatura proporcional tem seus problemas, seus adversários, suas bases eleitorais e suas contas a fazer.
E é justamente essa combinação que pode produzir um fenômeno perigoso para qualquer candidatura majoritária: quando todos começam a olhar prioritariamente para a própria sobrevivência eleitoral, sobra menos energia para carregar o projeto coletivo.
E, no outro lado, Joel Rodrigues
Para completar esse caldo político, a candidatura de Joel Rodrigues apresenta características que merecem atenção.
Independentemente das diferenças históricas e circunstanciais, Joel carrega alguns atributos políticos semelhantes aos que, em outros momentos, ajudaram a impulsionar lideranças como Mão Santa e o próprio Wellington Dias: a capacidade de construir uma imagem de proximidade com o eleitor comum.
Joel foi forjado no contato direto com a população.
É um político acostumado às ruas, às filas, aos mercados públicos, às feiras dos bairros, ao cafezinho nas casas e às conversas sem protocolo. Construiu uma imagem de homem afável, receptivo e disposto a escutar.
E existe uma característica eleitoral que jamais deve ser subestimada: saber ouvir.
Joel escuta muito e costuma falar numa linguagem que encontra ressonância em parcelas da população. Em eleições nas quais cresce a insatisfação com quem está no poder, essa proximidade pode transformar-se em ativo político relevante.
Isso, evidentemente, não significa antecipar resultado eleitoral. A máquina governamental possui peso, estrutura, alianças e enorme capacidade de mobilização. Rafael Fonteles governa apoiado por uma ampla composição política e dispõe das vantagens inerentes a quem disputa uma eleição ocupando o centro do poder estadual.
Mas eleições não são decididas apenas pela dimensão das máquinas.
A história política do próprio Piauí já demonstrou isso mais de uma vez.
Quando as urnas começam a falar
Talvez esteja justamente aí o elemento mais interessante da eleição que se aproxima.
De um lado, existe uma estrutura política poderosa, construída durante décadas e atualmente comandada por Rafael Fonteles. Do outro, uma candidatura que tenta crescer explorando exatamente aquilo que nenhuma estrutura administrativa consegue fabricar por decreto: identificação pessoal com o eleitor.
No meio desses dois polos estão as tradicionais lideranças políticas piauienses, algumas satisfeitas, outras contrariadas, muitas silenciosas e praticamente todas preocupadas com a própria sobrevivência eleitoral.
As convenções deverão retirar parte desse véu.
Depois delas, será possível saber quem realmente estará com quem, não apenas nas fotografias, nos palanques e nas declarações oficiais, mas principalmente nas bases eleitorais, onde a política efetivamente acontece.
Porque uma coisa é certa: na política, o silêncio raramente significa ausência de movimento.
Às vezes, significa exatamente o contrário.
E, se os sinais que começam a aparecer estiverem corretos, as eleições de 2026 no Piauí poderão reservar surpresas, mudanças de rumo e muitos episódios de “salve-se quem puder”.
Afinal, por maior que seja a máquina, chega sempre o momento em que ela precisa se encontrar com o eleitor.
E é dentro da cabine de votação, longe dos palácios, das alianças e dos acordos políticos, que essa história terá seu desfecho.
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