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Crônica CRÔNICA 4

Fogueira de São João no Boqueirão do Adolfo

​Para Mari, prima querida, filha de Lurdinha, a caçula da nossa inesquecível Tia Alzira.

26/06/2026 às 08h39
Por: Arthur Feitosa
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Foto: Reprodução
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​Mari, minha prima, veio ao mundo quando os olhos de Tia Alzira já sintonizavam outras paragens, lá no Reino do Eterno. Ela não conheceu o rosto risonho da avó, mas herdou a busca por suas origens. Questionado por ela sobre quem foi essa mulher, sinto que posso, com a legitimidade de quem viveu o encanto, traduzir um pouco da sua vozinha. Alzira Sales foi dessas raras criaturas que deixam um rastro luminoso por onde passam. Mulher de alma altiva, temperamento alegre e palavra benfazeja, fazia da convivência um ofício de amor e da simplicidade, sua maior sabedoria. Na sua presença, o mundo ganhava um brilho sereno e um profundo sentido de pertencimento.

​Minha memória mais viva nos leva de volta à fazenda de nosso avô materno, Adolfo Araripe Sales. Era lá, no Boqueirão, que a infância fincava suas raízes mais profundas. Na Semana Santa, o programa era obrigatório e sagrado: encerrar as comemorações religiosas na casa de Tia Alzira. Aquela morada modesta e acolhedora convertia-se no epicentro da nossa comunhão familiar.

​Ali, sob a luz prateada da lua e o rumor longínquo do vento nas folhas de sapucarana e o estalar intermitente das palhas de babaçus, éramos todos iguais: primos, tios, sobrinhos, compadres. A escassez de bancos e tamboretes  nunca foi um problema; a abundância de afeto compensava tudo. Ajeitávamo-nos em troncos de carnaúba, pedaços de freijó ou ipê, talos de maria-mole ou simples paus rolados da mata. Quando nada havia, o chão batido nos acolhia. E era ali, sentados em círculo, que o verdadeiro espetáculo da noite começava: a palavra viva de Tia Alzira ou melhor, de Tia Ziroca, sua persona de contadora de histórias. Aquela figura magnética que todos queriam ter por perto, dotada de uma capacidade quase mágica de juntar e unir as pessoas.

​A voz dela, firme e sonora, erguia-se no ar como quem invoca os espíritos antigos do sertão. Contava-nos as aventuras de João e Maria, duas crianças perdidas no bosque. Em sua versão, porém, a narrativa assumia contornos simbólicos: era a travessia da infância, o despertar da coragem, a vitória do afeto sobre o medo. Enquanto descrevia a casa de doces e o cheiro do forno aceso, parecia que o próprio ar do Boqueirão se enchia de açúcar queimado e infância.

​Em seguida, vinha o Pé de Feijão, e nossa imaginação se inflamava com o menino que ousou trocar a vaca por grãos mágicos. Na boca de Tia Ziroca, a fábula virava filosofia, um tratado sobre a audácia de sonhar, sobre o desafio de quem escala a vertigem do impossível em busca de algo maior. "O gigante", dizia ela com o olhar faiscante, "são as limitações que nos impõem; o menino é a fé que as vence".

​Mas era quando ela anunciava O Pavão Misterioso que o tempo simplesmente suspendia a sua marcha. Aquela canção-narrativa, meio poesia, meio canto litúrgico, transformava-se em ritual. Sua voz, carregada de emoção e teatralidade, narrava o amor do cavaleiro que cruzava os céus do sertão montado na ave alada. A cadência dos versos e o ritmo das rimas tornavam tudo sublime. Nós, as crianças absortas, respirávamos com parcimônia, temendo romper o encanto. Era uma comunhão estética e espiritual. Quando, por fim, ela concluía o relato com sua inconfundível gargalhada, sonora, livre, libertadora, tínhamos a certeza de haver participado de uma liturgia ancestral.

​Após o epílogo das histórias, o silêncio era breve, pois logo a noite se reacendia em torno da grande fogueira de São João. As toras, meticulosamente cortadas nas roças do Anajá, ardiam lentamente, exalando um perfume de lenha verde e memória. O fogo, alto e teimoso, projetava sombras dançantes sobre os rostos e fazia cintilar o brilho nos olhos.

​Era nesse instante que se dava o gesto mais bonito da noite: “passar a fogueira”. Atravessar aquelas brasas significava selar um pacto afetivo, um compadrio solene para a vida inteira. Eu próprio tornei-me compadre do primo Afonso,  filho querido de Tia Ziroca que Deus requisitou ao ceu tão cedo e que hoje recordo com reverência e imensa saudade. Nunca deixei de chamá-lo, mesmo décadas depois, de Compadre Afonso, pois certas palavras conservam o peso da eternidade.

​Encerrada a cerimônia do fogo, vinha o banquete singelo. Os tios mais velhos, em um gesto quase sacerdotal, escavavam as cinzas ainda fumegantes e dali retiravam, intactos e perfumados, os frutos da terra: batatas-doces, abóboras, espigas de milho novo, palmitos e babaçus. Tudo cozido pela paciência das brasas e envolto em folhas de bananeira, como se o próprio chão nos devolvesse o pão sagrado do convívio. Comíamos olhando para as estrelas, com a certeza de que ali, entre o calor do fogo e o riso da família, o mundo era bom e bastava.

​Essas noites no Boqueirão do vovô Adolfo não foram apenas recreio de infância. Foram ritos de formação. Através da voz de Tia Ziroca, compreendíamos a moral das histórias e o valor do círculo, da palavra partilhada, da união. Eram lições de humanidade disfarçadas de contos.
​Hoje, Mari, quando evoco a figura altiva e risonha de sua avó, senhora do verbo e da ternura, reconheço nela a guardiã de uma tradição que o tempo não pode apagar. Ela era a artesã da nossa memória familiar. E, talvez sem saber, construiu em nós a sensibilidade de quem aprende a ouvir antes de falar, e a sonhar antes de duvidar.

​Vida longa, pois, à nossa eterna Tia Ziroca. Uma voz que atravessou o tempo como o próprio Pavão Misterioso, em voo rasante sobre o sertão da nossa infância, deixando atrás de si o perfume das brasas, a música das gargalhadas e o brilho imortal das suas histórias.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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