
A Constituição Federal determina que todos são iguais perante a lei. É justamente por isso que o Supremo Tribunal Federal, como guardião da Carta Magna, deveria representar o mais elevado símbolo de equilíbrio, imparcialidade e segurança jurídica. Quando esse equilíbrio passa a ser questionado por parcela significativa da sociedade, o problema deixa de ser apenas político e passa a atingir a credibilidade das próprias instituições.
Desde a posse do presidente Lula, em 2023, chama atenção a concentração de operações da Polícia Federal, denúncias da Procuradoria-Geral da República e decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo lideranças e parlamentares de direita. Os números divulgados ao longo desse período alimentam um debate inevitável: a lei está alcançando todos com o mesmo rigor ou apenas determinados setores do espectro político?
Levantamento divulgado em julho de 2025 apontava que 83% das ações contra deputados federais no STF tinham como alvo parlamentares de direita. Das 61 ações em tramitação naquele momento, 51 envolviam deputados desse campo político, enquanto apenas cinco atingiam parlamentares de esquerda. No ano eleitoral de 2026, a percepção de assimetria se intensificou, embora ainda não exista um levantamento consolidado que traduza esse cenário em números atualizados.
Quando investigações alcançam figuras da esquerda, como ocorreu recentemente na Operação Compliance Zero, envolvendo o senador Jaques Wagner, os episódios são tratados como exceções, e não como parte de um padrão de atuação.
A consequência dessa disparidade estatística é inevitável. Cresce a percepção de que parte das instituições responsáveis por investigar, denunciar e julgar estaria concentrando seus esforços sobre um único segmento político, alimentando dúvidas sobre a isenção do sistema de Justiça.
No Supremo, medidas cautelares, prisões, restrições de contato, limitações ao uso das redes sociais e decisões de inelegibilidade também recaem, em sua maioria, sobre integrantes da oposição. Embora cada caso possua fundamentos próprios e deva ser analisado individualmente, o conjunto dos números acaba produzindo um efeito político que não pode ser ignorado.
Há pouco mais de um ano, o Partido Liberal concentrava cerca de 64% dos processos analisados nesse contexto. Paralelamente, a Polícia Federal deflagrou sucessivas operações contra integrantes desse campo político. Somente a Operação Lesa Pátria chegou a 29 fases até 2024, tornando-se uma das maiores ofensivas já conduzidas contra investigados pelos atos de 8 de janeiro.
Em uma democracia sólida, não basta que a Justiça seja imparcial. Ela também precisa parecer imparcial. Quando os números passam a indicar uma concentração tão expressiva sobre apenas um lado do espectro político, abre-se espaço para questionamentos que nenhuma democracia madura deveria desprezar. Afinal, a credibilidade das instituições não se sustenta apenas nas decisões que proferem, mas também na confiança que conseguem inspirar em toda a sociedade.
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