
Toda cidade tem seu ouvido. Umas escutam o vento nas folhas de juazeiro e sabem quando a chuva já vem dobrando a serra. Outras ouvem o sino e calculam, sem erro, o tamanho do velório. Água Branca, Barro Duro, Lagoinha. Três nomes curtos no mapa do médio parnaiba, mas com um tímpano antigo, treinado a distinguir a nota falsa antes que ela vire hino municipal.
Foi lá que o homem chegou primeiro. Desceu do carro com seu pífano de promessas e a retórica esgarçada nas bordas, como terno de defunto usado em posse. Subiu em palanque de madeira mal ajeitada, tentou afinar um discurso, tropeçou nas próprias sílabas como quem tropeça no meio fio em noite sem lua. O povo olhou. O povo pesou.
A rejeição não veio em editorial. Veio em silêncio. Foi no dia da feira, quando ele estendeu a mão e o feirante fingiu que ajeitava o tomate. Foi na missa, quando o banco ao lado amanheceu vazio, como se a santidade fosse contagiosa. Foi na urna, sem alarde, devolvendo o tocador ao silêncio com a frieza de quem devolve pão dormido. Não houve grito. Houve gesto. A lucidez, às vezes, é só isso: um não dito com a tranquilidade de quem fecha a porta porque conhece o tamanho do frio.
Teresina fez o contrário. Abriu não só a porta, mas o teatro inteiro. Entregou-lhe o palco principal, a batuta dourada, o holofote que transforma qualquer sombra em vulto de estátua. Não o fez por encantamento. Fez por cálculo. Engrenagens velhas, lubrificadas a ressentimento e vaidade, empurraram o banquinho para que ele subisse. Disseram-lhe: rege. Ele, que mal sabia solfejar a própria biografia, acreditou.
Nos seis meses iniciais, a cidade virou partitura rasurada. Cada secretaria tocava um tom que brigava com o vizinho. A da saúde gemia em sustenido contínuo, a de obras batia um tambor surdo em terreno baldio, a de comunicação soprava fumaça em vez de nota. O maestro girava no eixo, falava em cuscuz quando o assunto era concreto, prometia sinfonia e entregava batuque de colher em panela vazia.
E então veio a cena que o eternizou sem estátua.
Era manhã de sábado. A rua ainda cheirava a café coado e notícia velha. Ele apareceu na frente da sua residência para atender reporter só de cuecas, segurando um prato de cuscuz como quem segura cálice em procissão. Sentou no meio fio, as pernas abertas para o tráfego, e começou a comer com a mão. Mastigava olhando para o nada, explicando para ninguém uma teoria sobre milho e poder. Os carros desviavam. Um menino apontou. Uma senhora persignou-se. A cidade inteira, naquele instante, entendeu a metáfora sem precisar de legenda: quando o governante tira a roupa em público, não é transparência. É delírio. O “cuscuz de cuecas” não entrou para a história como anedota de boteco. Entrou como retrato. É o momento exato em que a linguagem desiste da política e a política desiste da cidade. O bobo da corte não governa. Ele entretém o salão enquanto a despensa é saqueada com recibo.
A burocracia, essa viúva que nunca guarda luto, apenas muda de peruca, engordou três quilos por carimbo. Rebatizaram as SDU’s com o fervor de quem batiza navio furado em dia de tempestade. O cidadão simples, que só queria levantar mais um quarto para o filho que casou cedo, peregrinou de guichê em guichê carregando sua planta baixa como quem carrega cruz sem estação de descanso. Kafka, se vivesse aqui, pediria demissão do absurdo por plágio evidente. Mudaram os nomes para que tudo permanecesse idêntico. É o expediente clássico da incapacidade: quando não se constrói ponte, inaugura-se a nova placa da ponte que não existe.
O meio do mandato foi um longo segundo ato sem clímax. Discursos que começavam em Brasília e terminavam em lugar nenhum. Auxiliares estridentes disputando quem gritava mais alto no vácuo. A cidade bateu cabeça como menino João-teimoso, insistindo na queda porque levantar dá trabalho. A política do disfarce substituiu a política da entrega.
E então veio o terceiro ato. O últimos imo.
Veio sem trombeta, sem aplauso, sem nem mesmo as vaias que dignificam o fracasso. Veio como chegam as contas de fim de mês: inevitável e sem poesia. O homem que entrou no teatro com foguetório tentou a reeleição com a batuta lascada e a casaca puída. Subiu em palanque outra vez. A praça, que já o tinha decorado, não devolveu o coro. O pífano, que antes parecia exótico, agora soava só desafinado.
As urnas se abriram como quem abre janela depois de velório. E o número que saiu de dentro não elegia nem promessa. Os votos que juntou em quatro anos de mandato não pagavam o preço de um vereador de bairro distante. É a matemática que não perdoa metáfora: quando a soma não dá nem para a legenda, o subtraído é você.
O ostracismo não chegou com porta batida. Chegou com silêncio de telefone que não toca. Chegou com a ausência de convite para a festa de santo. Chegou quando o garçom do restaurante que ele frequentava perguntou “o senhor é?” antes de anotar o pedido. Os mesmos que empurraram o banquinho já tinham desmontado o cenário. Os mesmos que afinavam a destruição no escuro agora afinavam outro nome, em outro tom, para outra temporada. O maestro, sem orquestra, sem partitura, sem público, virou verbete de rodapé. Esquecido antes do ponto final. Humilhado não pelo adversário, mas pela indiferença, que é a forma mais cruel de vaia.
Hoje, se você caminha pela avenida no fim da tarde, ainda escuta um eco. Não é da banda. É do vazio que ela deixou. A cidade continua, porque cidade é teimosa como raiz de calçada. Mas carrega no passo um mancar novo, a lembrança de quando trocou a regência pela algazarra e chamou de gestão o que era apenas ruído.
No fim, toda opereta é também espelho. E o que vemos refletido não é só o maestro que não soube a hora de descer do palco. É o teatro inteiro que aceitou a farsa como temporada, que pagou para ver e depois fingiu que não estava na plateia.
A cortina caiu. Não houve bis. Só o zelador varrendo panfleto velho, e a lembrança de um homem de cuecas, sozinho, comendo cuscuz no meio fio, enquanto Teresina desviava, fingindo que não via.
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