
A crônica política piauiense é prodigiosa em oferecer episódios onde a arrogância do poder instituído esbarra, inapelavelmente, na vontade soberana do eleitor. Contudo, parece que as lições da história não são assimiladas por aqueles que, inebriados pelos palácios e pelo controle do orçamento, passam a confundir os limites republicanos com seus próprios interesses de perpetuação no poder.
Ao observarmos a ainda precoce, porém crescente, disputa pelo Palácio de Karnak nas eleições de 2026, notadamente polarizada entre o atual governador, Rafael Fonteles, e o ex-prefeito de Floriano, Joel Rodrigues, somos forçados a revisitar um passado não tão distante. Um passado onde a presunção das oligarquias foi subitamente desmantelada.
É forçoso rememorar o pleito de 1994, marco na história do Piauí. Naquela quadra, um consórcio político poderoso e opulento, representado por figuras proeminentes como Guilherme Melo, Heráclito Fortes, Lucídio Portela, Freitas Neto e Hugo Napoleão, subestimou um adversário que lhes parecia provinciano e inofensivo. O ex-prefeito de Parnaíba, Mão Santa, preterido pelas cúpulas que julgavam monopolizar o destino do estado, foi alijado das composições majoritárias sob a alegação de que sua influência esgotava-se nas fronteiras de Piracuruca.
O “esquema” da época era tido como imbatível. A máquina estatal, operando a todo vapor, garantiu a eleição de quase toda a bancada no Legislativo estadual e federal, além das cadeiras no Senado. O candidato governista, Átila Lira, logrou uma vantagem de mais de cem mil votos no primeiro turno. Parecia o triunfo inquestionável da estrutura sobre a vontade popular. Todavia, a arrogância cobrou seu preço. Mão Santa, em uma peregrinação obstinada, dialogou com a alma do piauiense. O desfecho dessa ópera bufa para os governistas é conhecido: a máquina sofreu uma derrota acachapante no segundo turno, e a hegemonia de décadas ruiu sob o peso da presunção.
O matemático que despreza a própria lógica dos números
É nesse ponto que nos deparamos com uma ironia quase poética no cenário contemporâneo. O atual governador, Rafael Fonteles, ostenta com orgulho sua sólida formação como matemático. Alguém graduado na ciência exata dos números deveria, por formação intelectual, curvar-se aos fatos. Deveria compreender que a matemática é a busca obstinada pela verdade através da lógica, e não um acessório plástico a ser moldado ao sabor das conveniências.
No entanto, o gestor parece sofrer de uma seletividade numérica crônica. Sua mente cartesiana parece só aceitar, interpretar e validar os números quando estes se mostram servis ao seu projeto de poder e à sua corte de bajuladores. Quando as estatísticas reais, aquelas que emanam do sentimento genuíno das ruas, apontam o crescimento e a liderança de Joel Rodrigues, o matemático abdica da lógica e abraça o negacionismo estatístico.
Essa miopia matemática revela um preconceito de fundo elitista e arrogante. Sob a ótica do palácio, parece inconcebível que Joel, um homem de origens simples do interior do estado, possa ter a audácia e a capacidade de lhe impor uma derrota eleitoral. Essa soberba acadêmica e social, que confunde a erudição dos gabinetes com a sabedoria das urnas, é o mesmo combustível que alimentou a queda dos gigantes de 1994. O governador esquece-se de que, na verdadeira equação democrática, o voto de um cidadão humilde do interior tem exatamente o mesmo peso absoluto do voto do mais ilustre acadêmico.
A estatística como instrumento de ficção
Essa incompreensão intencional da realidade explica por que, em um intervalo exíguo de 24 horas, o eleitorado piauiense foi bombardeado por narrativas contraditórias. Primeiro, um levantamento sério demonstrava o ex-prefeito Joel Rodrigues liderando o pleito e impondo uma considerável margem no segundo turno, números factíveis e consoantes com o sentimento de insatisfação que permeia diversas camadas da sociedade. Imediatamente após, como num passe de mágica estatística financiado sabe-se lá por quem, desponta em um portal de abrangência nacional uma pesquisa outorgando ao governador uma dianteira abismal de mais de quarenta pontos percentuais.
A inteligência do cidadão piauiense não tolera insultos dessa magnitude. Ninguém, munido do mais rudimentar bom senso, confere credibilidade a disparidades tão grotescas. Essa ginástica numérica não possui finalidade analítica; é, antes, um instrumento abjeto de propaganda. O intuito é inebriar a opinião pública, construir uma falsa aura de invencibilidade e incutir no eleitor a ideia de que a oposição é um esforço inócuo.
O sequestro do erário e a imoralidade administrativa
O ponto nodal desta reflexão não repousa apenas na manipulação da verdade, mas no custo dessa ficção. Qual é o preço de estampar narrativas fantasiosas nas capas de grandes portais de notícias? E, mais grave ainda, quem está pagando essa conta?
O uso desvirtuado da máquina pública para a autopromoção e para o esmagamento de adversários é um ultraje à República. Os recursos financeiros, amealhados através dos extorsivos impostos pagos pelo cidadão, têm destinação vinculada e sacrossanta: devem prover leitos aos enfermos, dignidade nas escolas e segurança nas vias públicas. Quando esses recursos são, direta ou indiretamente, canalizados para fomentar a publicidade governamental dissimulada de jornalismo e financiar manobras de silenciamento estatístico, estamos diante de um sequestro do erário. É o Estado atuando contra o próprio povo, utilizando o dinheiro do pagador de impostos para ludibriá-lo.
O grupo político que hoje detém as chaves do estado parece ignorar o axioma fundamental da política democrática: o poder é efêmero e o governante é apenas síndico temporário do patrimônio coletivo, jamais seu proprietário, jamais proprietário do bem público. Sem calçar as sandálias da humildade, trilham o mesmo caminho de cegueira que fulminou seus antecessores.
O piauiense já demonstrou, em 1994, que o peso da máquina pública jamais supera o peso da consciência do eleitor. Governos passam. O Estado permanece. E toda vez que um governante confunde o patrimônio público com patrimônio político, a história costuma cobrar a conta nas urnas. Afinal, a humildade, como ensina a sabedoria popular, nunca fez mal a ninguém e continua sendo um ingrediente mais valioso do que qualquer máquina de poder.
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