
O tarifaço de 25% anunciado pelo presidente Donald Trump contra parte das exportações brasileiras não pode ser tratado como um fato isolado. Tampouco deve ser reduzido a uma simples retaliação comercial. A medida representa o fracasso de uma relação diplomática que, nos últimos meses, foi marcada por desconfiança, discursos agressivos e ausência de entendimento entre Brasília e Washington.
As declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, foram contundentes. Segundo ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não negociou de boa-fé e colocou seu próprio ego acima da construção de um acordo que pudesse beneficiar o povo brasileiro. Para o governo americano, essa postura foi determinante para a adoção das novas tarifas.
É evidente que essa é a versão de Washington. O governo brasileiro rejeita integralmente essa interpretação, afirma que permaneceu aberto ao diálogo e acusa os Estados Unidos de utilizar argumentos políticos para justificar uma medida comercial.
Mas, independentemente de quem tenha razão na disputa de versões, um fato é inegável: a negociação fracassou.
Na diplomacia, pouco importa quem faz o discurso mais contundente. O que importa é o resultado. E o resultado foi a imposição de uma tarifa que reduz a competitividade de diversos produtos brasileiros no maior mercado consumidor do planeta.
É verdade que importantes itens da pauta de exportação ficaram de fora, como café, carne bovina, petróleo, suco de laranja e aeronaves. Isso ameniza o impacto imediato. Mas não elimina o desgaste político nem a insegurança econômica criada pela decisão americana.
O episódio também revelou a rapidez com que um problema internacional foi transformado em arma eleitoral.
A oposição acusa Lula de ter conduzido a política externa com excesso de ideologia e pouca disposição para negociar. Já o governo tenta associar o tarifaço à atuação internacional da família Bolsonaro, especialmente de parlamentares que mantiveram interlocução com integrantes da administração Trump.
Ambas as narrativas servem aos respectivos interesses políticos.
Entretanto, até o momento, não há prova pública de que o governo Lula tenha desejado provocar o tarifaço para obter dividendos políticos internos. Da mesma forma, também não existe demonstração de que Eduardo Bolsonaro ou Flávio Bolsonaro tenham determinado ou influenciado decisivamente a decisão da Casa Branca.
O que existe é uma decisão oficial baseada na investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, que aponta críticas ao Brasil em temas como etanol, comércio digital, proteção à propriedade intelectual, desmatamento, regras relacionadas ao Pix e fiscalização sobre trabalho forçado.
Pode-se discordar dessas justificativas. Pode-se considerá-las exageradas ou politicamente motivadas. Mas ignorá-las seria um erro estratégico.
Outro aspecto merece reflexão.
Nos últimos anos, a política externa brasileira passou a refletir, com frequência, posições ideológicas que dificultaram o diálogo com parceiros estratégicos. O mesmo ocorreu, em momentos distintos, com governos de diferentes espectros políticos. Quando a diplomacia passa a servir prioritariamente aos embates internos, perde sua principal função: proteger os interesses permanentes do Estado brasileiro.
Na política, o confronto rende aplausos.
Na economia, costuma produzir prejuízos.
O comércio internacional não funciona com discursos para militâncias. Funciona com previsibilidade, segurança jurídica, confiança e capacidade de negociação.
Nenhuma grande potência toma decisões comerciais apenas por simpatia ou antipatia. Interesses econômicos e geopolíticos sempre prevalecem.
Por isso, o Brasil precisa abandonar a lógica do enfrentamento permanente e reconstruir canais de diálogo com seus principais parceiros comerciais, independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto ou a Casa Branca.
No final, governos passam.
Presidentes mudam.
As disputas eleitorais terminam.
Mas os empregos perdidos, os investimentos adiados e as oportunidades desperdiçadas permanecem.
A maior lição desse episódio talvez seja a mais simples de todas: ideologia pode mobilizar eleitores, mas nunca substituirá a diplomacia. E quando a diplomacia falha, a conta invariavelmente chega para toda a sociedade brasileira.
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