
O tema da liturgia deste domingo continua sendo o ato de perdoar, agora refletido como necessidade para ser feliz. O Livro do Eclesiástico nos diz que: “O rancor e o ódio são coisas detestáveis; até o pecador procura dominá-las.” “Quem se vingar encontrará a vingança do Senhor, que pedirá severas contas de seus pecados.” Quando nos deixamos levar por esses sentimentos, não só não reparamos a injustiça que nos atingiu, mas o mal irá se agravar.
Vatican News - Josenildo *Melo
Sabemos que o homem verdadeiramente religioso perdoa, e isso garante sua relação com Deus, porque Deus é misericórdia e nos criou à sua imagem e semelhança. Fomos criados à imagem da misericórdia e do perdão. “Se não tem compaixão por seu semelhante, como poderá pedir perdão pelos próprios pecados?”
O mais humano, o mais racional é perdoar as injustiças cometidas contra nós, para que Deus perdoe as nossas. O ódio e a vingança só acrescentam mágoas, dores e outros sentimentos negativos, enquanto o perdão leva à vida, à reconstrução, à liberdade. O perdão abre as portas ao diálogo, à possibilidade de aliança, “devolve ao outro o direito de ser feliz”.
No Evangelho de hoje, Jesus nos diz para “perdoar setenta vezes sete” o irmão, isto é, perdoar sempre. Apesar de textos como o do Eclesiástico estarem presentes no mundo judeu da época, era para todos muito difícil perdoar algumas faltas, principalmente se fossem cometidas várias vezes pela mesma pessoa. Também nós, alguns milênios depois, temos as mesmas dificuldades. Pedro, nesse momento, representa toda a humanidade que pergunta ao Senhor quantas vezes deve-se perdoar.
Para o Mestre, o perdão deve ser total e contínuo. Deve ser uma atitude, uma postura de vida. Para isso, Ele nos ensina no Pai-Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos aos que nos têm ofendido”.
Jesus conta uma parábola: um rei pediu que um de seus empregados, que lhe devia uma grande fortuna, lhe pagasse. Este, evidentemente, jamais teria esse dinheiro e suplicou por perdão. O rei, compassivo, perdoou. Contudo, o empregado perdoado, ao sair da presença do rei, encontrou um companheiro que lhe devia uma quantia pequena, cerca de três salários mínimos. Ele simplesmente agarrou o companheiro pelo pescoço e exigiu o pagamento. Também esse fez como ele: ficou de joelhos e pediu um tempo para pagar. Mas o empregado não agiu como o rei que lhe perdoara a dívida; ao contrário, mandou prender o colega. Quando o rei soube do ocorrido, ficou indignado e mandou prender o empregado, a quem chamou de servo mau e cruel.
O rei da parábola possuía misericórdia, enquanto seu empregado, não. Deus é esse rei que nos perdoa todas as nossas imensas dívidas. Por isso, devemos agir como Ele e perdoar aos que nos devem. “Filho de peixe, peixinho é!” Deus nos fez à sua imagem e semelhança!
O perdão é conatural ao ser humano; contudo, o não perdoar é antinatural, é desumano! Desfigura o homem e a sociedade. Favorece o progresso da violência, instaurando a cultura da morte. Isso traz o inferno para o nosso dia a dia. Ao contrário, se somos humanos e perdoamos, estamos trabalhando pela paz, pela nova sociedade, instaurando a Civilização do Amor!
Josenildo Nascimento Melo é Vaticanista - Jornalista especialista em Santá Sé/Vaticano/Igreja Católica
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