
Não se ganha uma eleição presidencial sozinho. Flávio Bolsonaro sabe disso. Talvez por isso, no dia seguinte ao primeiro turno, enquanto ainda se contabilizavam os resultados e se fazia a autópsia das urnas, o candidato do PL já estava em campo. A missão agora é transformar a vantagem obtida no primeiro turno em uma maioria suficiente para vencer a segunda etapa da disputa, marcada para 25 de outubro.
Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula. Foram mais de 2,2 milhões de votos de vantagem. É uma posição confortável? Sem dúvida. É uma eleição ganha? Nem de longe. Segundo turno é outra eleição, com apenas dois candidatos na disputa e com milhões de votos disponíveis para serem conquistados.
E Flávio parece ter entendido rapidamente essa matemática. Em vez de ficar comemorando a vantagem, começou a procurar os votos que ficaram pelo caminho. E começou justamente pelos adversários que já deixaram a corrida presidencial. Ronaldo Caiado confirmou apoio ao candidato do PL, enquanto Romeu Zema também declarou seu voto em Flávio. Augusto Cury foi procurado, mas, até o momento, não anunciou apoio formal a nenhum dos dois candidatos. A diferença é importante: articulação política não é o mesmo que adesão confirmada.
Mas o movimento vai muito além dos candidatos derrotados. A campanha de Flávio já trabalha para aproximar partidos do chamado Centrão, especialmente PP, União Brasil e Republicanos, além de buscar governadores, parlamentares e lideranças regionais. É a velha política funcionando em sua versão mais pragmática: no primeiro turno cada um cuida do seu projeto; no segundo, começa a pergunta sobre quem tem mais condições de chegar ao Palácio do Planalto.
Nesse tabuleiro, Flávio chega com algumas peças importantes. O PL elegeu uma bancada robusta no Congresso, com 19 senadores e 121 deputados federais. Tarcísio de Freitas, reeleito governador de São Paulo com 62,65% dos votos, está ao lado de Flávio e pode exercer papel decisivo no maior colégio eleitoral do País. Em Minas Gerais, Cleitinho Azevedo e Nikolas Ferreira já se posicionaram. No Rio de Janeiro, a estrutura política do PL também deverá ser mobilizada.
Há, ainda, uma questão que não pode ser desprezada: Flávio não apenas venceu o primeiro turno como também superou o desempenho obtido por Jair Bolsonaro em 2022 na maioria dos Estados. O candidato do PL ficou à frente da votação do próprio pai em 26 Estados, ficando abaixo apenas no Distrito Federal. Em São Paulo, por exemplo, Flávio acrescentou cerca de 682 mil votos em relação ao desempenho de Bolsonaro quatro anos atrás. No Sul, o crescimento também foi expressivo.
O desafio maior está no Nordeste. Lula continua à frente nos nove Estados da região, embora tenha perdido terreno em alguns deles, especialmente Bahia e Ceará. É justamente aí que a campanha de Flávio pretende concentrar parte importante da estratégia do segundo turno. Não basta manter a vantagem onde já ganhou. É preciso reduzir a distância onde Lula continua forte.
E existe um eleitorado ainda maior à disposição dos dois candidatos: mais de 33 milhões de brasileiros que não compareceram às urnas. Somam-se a eles os votos brancos, nulos e, principalmente, os milhões de votos recebidos pelos candidatos eliminados. Esses votos não pertencem automaticamente a ninguém. Não existe herança eleitoral. Quem quiser transformá-los em maioria terá de convencer seus donos.
É exatamente por isso que as movimentações de Flávio começam a incomodar a campanha petista. Enquanto o candidato do PL procura construir uma frente política com antigos adversários, governadores, partidos e lideranças regionais, Lula precisa encontrar caminhos para ampliar sua própria coalizão. A tarefa é particularmente delicada porque alguns partidos que permaneceram neutros no primeiro turno agora começam a avaliar para que lado penderão.
No fundo, a disputa entrou em uma nova fase. Flávio está tentando fazer aquilo que uma candidatura de segundo turno precisa fazer: deixar de ser apenas uma candidatura e transformar-se em uma frente eleitoral. O desafio é gigantesco, mas a estratégia é clara. Cada governador conta. Cada partido conta. Cada liderança regional conta. E, principalmente, cada voto conta.
A eleição, portanto, está longe de estar decidida. Os 47,03% de Flávio representam uma vantagem importante, mas não garantem a vitória. O que eles garantem é uma largada melhor para uma corrida que agora será disputada em apenas 20 dias.
Enquanto Lula ainda procura explicações para o resultado do primeiro turno, Flávio já trabalha para ganhar o segundo. E, numa eleição tão apertada, talvez essa diferença de postura seja tão importante quanto os mais de 2,2 milhões de votos que hoje separam os dois candidatos.
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