
O segundo turno começou a produzir um movimento que vai muito além da disputa entre dois candidatos. A Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas (PP), oficializou apoio a Flávio Bolsonaro, abandonando a neutralidade adotada no primeiro turno. A decisão é politicamente relevante porque coloca ao lado do candidato do PL uma estrutura partidária com presença nacional, bancadas expressivas no Congresso e influência direta sobre governos, prefeituras e grupos políticos estaduais.
Nos bastidores, integrantes do alto escalão do Centrão passaram a tratar a vitória de Flávio como praticamente certa, segundo o Metrópoles. Essa leitura, entretanto, deve ser entendida como avaliação política de lideranças, e não como resultado eleitoral antecipado. A urna do segundo turno ainda não foi aberta, e o apoio partidário não significa que todos os eleitores dessas legendas automaticamente migrarão para o candidato apoiado.
O que muda, então, com o apoio do Centrão?
Muda sobretudo a estrutura da disputa. União Brasil e PP deixaram de apenas observar o segundo turno para entrar formalmente na campanha. A federação decidiu orientar suas bancadas a apoiar Flávio, embora existam casos de integrantes que sinalizam posições diferentes. É o exemplo do deputado André Fufuca, recém-eleito senador pelo Maranhão, que, segundo o próprio PT, estaria inclinado a apoiar Lula individualmente.
Mas o peso do Centrão não está apenas na quantidade de votos que seus partidos receberam para presidente. Está na capilaridade. São prefeitos, governadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores, vereadores, dirigentes partidários e lideranças locais espalhados pelo País. É uma rede política que conhece os municípios, controla estruturas eleitorais e possui capacidade de mobilização nos Estados.
Os números ajudam a dimensionar essa força. Na Câmara que tomará posse em 2027, União Brasil e PP terão juntos 87 deputados, segundo levantamento da Folha. O Republicanos, outro partido central nas negociações, terá 41. O chamado Centrão perdeu espaço proporcionalmente para a direita, especialmente para o PL, mas continua suficientemente grande para ser decisivo na formação de maiorias e na aprovação de projetos no Congresso.
E há um detalhe ainda mais importante: o Centrão não está confinado a Brasília.
Nas eleições estaduais, partidos tradicionalmente associados ao centro pragmático também saíram fortalecidos. O Republicanos reelegeu Tarcísio de Freitas em São Paulo e Otaviano Pivetta em Mato Grosso, além de ter conquistado espaço em outras disputas. O PP elegeu Eduardo Riedel em Mato Grosso do Sul e Lucas Ribeiro na Paraíba. No conjunto, o mapa dos governos estaduais mostra uma presença expressiva de partidos de centro e centro-direita, ao lado do avanço do PL.
Isso significa que uma eventual aliança presidencial não será construída apenas em Brasília. Ela poderá chegar aos Estados através dos palanques, das máquinas partidárias e das lideranças que disputam ou já controlam governos estaduais. A campanha de Flávio, aliás, já assegurou apoios políticos em Estados onde haverá segundo turno para governador, entre eles Acre, Amazonas, Amapá, Espírito Santo e Rio de Janeiro.
O movimento também conversa com a nova configuração do Congresso. O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada da Câmara, e 19 senadores, podendo chegar a 28 integrantes no Senado com os parlamentares que já possuem mandato.
É nesse ponto que a aproximação com o Centrão ganha outra dimensão. Não se trata apenas de ganhar uma eleição presidencial. Trata-se também de construir governabilidade antes mesmo de saber quem ocupará o Palácio do Planalto. União Brasil, PP e Republicanos sabem que a próxima legislatura terá uma correlação de forças diferente, com a direita mais forte e o PL ocupando posição central.
A campanha de Flávio tenta aproveitar esse momento. Depois de conquistar o apoio de Romeu Zema e Ronaldo Caiado, o candidato passou a buscar outras legendas. O Republicanos permanece em negociação, enquanto o Podemos também aparece no radar.
Há, portanto, uma fotografia política bastante diferente daquela do primeiro turno. Flávio não está apenas tentando conservar os 47,03% que recebeu. Está procurando transformar sua vantagem eleitoral em uma frente política nacional, capaz de reunir partidos, governadores, parlamentares e lideranças regionais.
Mas há uma ressalva indispensável: apoio de partido não é transferência automática de voto. O eleitor não recebe ordem de ninguém na cabine de votação. O Centrão pode oferecer estrutura, palanques e capilaridade; transformar isso em votos dependerá da campanha e da capacidade de cada liderança convencer sua própria base.
É justamente por isso que o apoio do Centrão é importante, mas não encerra a eleição. Ele altera o ambiente político, fortalece a estrutura de campanha e sinaliza uma mudança relevante na correlação de forças. Não substitui a urna.
A grande questão agora é saber se essa convergência política conseguirá produzir convergência eleitoral.
E é aí que começa, de fato, o segundo turno.
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