
O Brasil alimenta mercados pelo mundo, bate recordes de produção agrícola e se consolida como uma das grandes potências do agronegócio. Mas existe uma contradição incômoda nessa história de sucesso: o país que planta em escala gigantesca ainda depende do exterior para obter cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. É uma fragilidade estratégica que pode transformar conflitos internacionais em prejuízo dentro da porteira.
A Revista Oeste abordou o problema em reportagem publicada em 21 de outubro, destacando como a dependência externa compromete a previsibilidade dos custos e a segurança das safras brasileiras. Os fertilizantes representam entre 20% e 30% dos custos de produção agrícola. Não se trata, portanto, de um detalhe técnico, mas de um dos fatores que determinam a rentabilidade do produtor e a competitividade do país.
Os conflitos no Oriente Médio e a instabilidade nas rotas internacionais de abastecimento demonstram como decisões tomadas a milhares de quilômetros podem afetar diretamente o agricultor brasileiro. O enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes fosfatados, sofreu forte valorização em meio às restrições de oferta associadas à crise regional. O resultado é uma pressão adicional sobre os custos de produção.
A guerra entre Rússia e Ucrânia já havia exposto os riscos de depender de fornecedores estrangeiros. Agora, a instabilidade no Oriente Médio reforça o alerta. Rússia, Canadá, Marrocos e países daquela região integram o conjunto de fornecedores relevantes para o mercado brasileiro. Quando conflitos, sanções ou problemas logísticos atingem essas cadeias, o produtor nacional fica sujeito a aumentos de preços e incertezas no abastecimento.
Eis o paradoxo: o Brasil possui terras, água, tecnologia, conhecimento agronômico e capacidade produtiva para ocupar posição de destaque na agricultura mundial, mas continua vulnerável em um insumo essencial para sustentar essa grandeza.
A dependência dos fertilizantes não surgiu de uma hora para outra. Ela está associada a fatores geológicos, econômicos e históricos, além das dificuldades para desenvolver uma indústria nacional competitiva. No caso dos nitrogenados, o custo do gás natural pesa sobre a fabricação. Nos fosfatados, as características das reservas minerais e o preço das matérias-primas impõem obstáculos. No potássio, a concentração das grandes jazidas em outros países amplia a dependência externa.
O Brasil tem potencial para ampliar a produção doméstica, desenvolver bioinsumos e aproveitar resíduos agrícolas na fabricação de fertilizantes. Essas alternativas, contudo, precisam superar desafios de escala, logística, tecnologia e competitividade. Não existe solução mágica, muito menos autossuficiência instantânea.
O Plano Nacional de Fertilizantes estabeleceu a meta de reduzir a participação das importações de aproximadamente 85% para 45% até 2050. A meta evidencia que o problema é conhecido há anos. A questão decisiva é transformar planejamento em investimentos, capacidade industrial e resultados concretos.
A vulnerabilidade não termina na compra do adubo. Juros elevados, endividamento, dificuldades de acesso ao crédito, falta de armazenagem, gargalos logísticos e cobertura insuficiente de seguro rural também afetam a rentabilidade. O produtor pode colher uma safra volumosa e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras se os custos consumirem boa parte da receita.
É justamente esse o ponto que precisa entrar no centro do debate sobre o futuro do agronegócio brasileiro: recordes de produção são importantes, mas não contam toda a história. O que importa também é quanto sobra para quem produz, quanto valor permanece no país e quão resistente é a cadeia produtiva diante das crises externas.
Industrializar mais, fortalecer cooperativas, agregar valor à produção e ampliar a infraestrutura são caminhos para melhorar a remuneração do produtor e a competitividade do setor.
O Brasil não pode se contentar em ser uma potência agrícola dependente de decisões tomadas além de suas fronteiras. Reduzir vulnerabilidades não significa fechar a economia ou abandonar fornecedores internacionais. Significa diversificar riscos, desenvolver a produção nacional onde houver viabilidade econômica e construir condições para que uma crise externa não coloque em xeque o planejamento de uma safra inteira.
A força do agronegócio brasileiro é inegável. Mas uma potência que depende do exterior para obter a maior parte de um insumo essencial precisa reconhecer sua vulnerabilidade e enfrentá-la com políticas de longo prazo, investimentos e menos distância entre os planos anunciados e aquilo que efetivamente chega ao campo.
Porque produzir muito é uma conquista. Ter segurança para continuar produzindo, mesmo quando o mundo entra em crise, é uma questão de soberania econômica.
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