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Justiça OPINIÃO DE O ESTADÃO

Quando até o Estadão diz que Moraes “vandalizou” o Supremo

Editorial do jornal centenário afirma que a reação de Alexandre de Moraes provocou na Corte um dano institucional mais grave que o vandalismo do 8 de janeiro

05/09/2026 às 07h54
Por: Douglas Ferreira
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O sorriso coletivo do escárnio - Foto: Reprodução
O sorriso coletivo do escárnio - Foto: Reprodução

Depois de um longo e tenebroso inverno, a mídia tradicional parece ter acordado da hibernação. Sim. E a prova mais eloquente disso vem justamente de um dos jornais mais tradicionais do País, O Estado de S. Paulo, o Estadão. O jornal centenário resolveu colocar o dedo na ferida e, sem fazer rodeios, publicou um editorial com um título que até pouco tempo atrás parecia impensável: “Alexandre de Moraes vandaliza o Supremo”. E não é pouca coisa. O Estadão afirma que o ministro teria causado à Suprema Corte um dano institucional ainda mais grave do que aquele provocado pelos vândalos que invadiram e depredaram o STF em 8 de janeiro de 2023.

E qual é a essência dessa acusação editorial? O Estadão sustenta que Moraes, ao reagir às revelações envolvendo sua relação com Daniel Vorcaro, teria colocado sua defesa pessoal acima da defesa da própria instituição. Na avaliação do jornal, em vez de responder ao mérito das suspeitas, o ministro teria escolhido partir para o confronto com André Mendonça, que levantou o sigilo de informações da investigação sobre o Banco Master. Traduzindo para o popular: em vez de explicar a história, teria preferido brigar com quem colocou a história sob os holofotes.

O pano de fundo é pesado. Reportagens do próprio Estadão revelaram elementos extraídos do celular de Vorcaro e informações sobre o contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes. Uma reportagem apontou ainda que metadados do documento indicariam uma edição atribuída ao perfil “Ministro Alexandre de Moraes”. São informações que geraram questionamentos éticos e jurídicos e que, evidentemente, precisam ser investigadas e submetidas ao contraditório.

Mas o editorial vai muito além do contrato. O Estadão questiona a própria reação de Moraes e o uso do chamado inquérito das fake news no confronto com Mendonça. O jornal também critica o documento utilizado para sustentar acusações contra o colega de Corte, apontando problemas quanto à sua formalidade e ao seu valor probatório. Fachin, presidente do STF, recusou incluir Mendonça no rol de investigados, segundo o relato apresentado pelo editorial. É aí que a coisa fica preta.

Porque, para o Estadão, o problema deixou de ser uma divergência entre dois ministros. O jornal afirma que Moraes e os ministros que o protegem passaram a representar uma fonte de instabilidade democrática e acusa essa ala de ter transformado o Supremo, criado em 1891, em uma espécie de “aberração corporativista”. Também levanta uma questão gravíssima: a eventual instrumentalização da Polícia Federal em disputas internas da própria Corte.

E aqui está talvez o ponto mais explosivo do editorial. O Estadão não está dizendo que o STF foi vandalizado por fora. Está dizendo que a própria instituição estaria sendo corroída por dentro. O ataque de 8 de janeiro quebrou vidraças, portas e móveis. O que o editorial sustenta é que determinadas condutas de um ministro podem ter atingido algo muito mais difícil de reconstruir: a autoridade moral e a credibilidade da Suprema Corte.

Isso explica por que o jornal cobra uma reação de Edson Fachin. O editorial coloca sobre o presidente do Supremo uma responsabilidade histórica: liderar o resgate da instituição. Não se trata, portanto, apenas de defender ou atacar Alexandre de Moraes. Trata-se de saber se o STF terá força para investigar seus próprios integrantes, estabelecer limites e demonstrar que nenhum ministro está acima das regras que a Corte impõe ao restante da sociedade.

E há um detalhe que não pode ser ignorado. O Estadão já havia publicado outro editorial defendendo que “Moraes tem de sair do Supremo”, argumentando que as revelações sobre sua relação com o Banco Master tornaram sua permanência institucionalmente insustentável. O jornal sustenta que, se Moraes não se afastar voluntariamente, caberia ao Senado enfrentar a questão dentro dos mecanismos constitucionais.

Ora, ora. Quando um dos jornais mais tradicionais do Brasil passa a dizer que um ministro do Supremo está causando mais dano institucional à Corte do que os depredadores do 8 de janeiro, o País precisa parar para ouvir. Não porque o Estadão seja dono da verdade, mas porque a crítica vem de dentro da própria imprensa tradicional, aquela mesma imprensa que durante muito tempo foi acusada de passar pano para os excessos do Supremo.

O reflexo político e institucional pode ser enorme. Outros veículos já passaram a repercutir as denúncias, juristas defendem apuração e até o debate sobre eventual afastamento de Moraes ganhou novo combustível. Especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que as mensagens e documentos divulgados justificam a investigação de possíveis ilícitos, sem que isso signifique antecipar culpa.

O jogo, portanto, mudou. A pergunta já não é apenas o que Alexandre de Moraes fez ou deixou de fazer. A pergunta agora é: o que o Supremo fará diante de tudo isso? Porque uma Corte Constitucional não pode exigir respeito apenas pelo peso de sua toga. Precisa merecê-lo pela transparência, pela imparcialidade, pelo respeito às próprias regras e, sobretudo, pela capacidade de colocar a Constituição acima de qualquer ministro.

Depois de um longo e tenebroso inverno, talvez a mídia tradicional esteja finalmente abrindo as janelas. E quando até o Estadão chama de “vandalismo” a atuação de um ministro dentro do próprio Supremo, é sinal de que a crise deixou de ser apenas uma guerra de narrativas. Virou uma crise de credibilidade institucional.

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