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De Roma ao Piauí: o Rubicão, o poder familiar e os idos de março da modernidade

Como os clãs do Piauí moderno repetem o roteiro de Roma: cruzam seus próprios Rubicões, herdam cadeiras e deixam o povo fora do jogo

10/06/2026 às 08h17 Atualizada em 10/06/2026 às 09h18
Por: Arthur Feitosa
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Imagem gerada por inteligência artificial
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A história é um espelho cíclico. Embora os séculos nos separem da opulência e das intrigas de Roma Antiga, os mecanismos que movem o poder, a ambição e a engenharia política permanecem surpreendentemente intactos. No epicentro dessa engrenagem clássica reluz a figura de Júlio César, o general que expandiu os horizontes de Roma, conquistou a Gália e desafiou a aristocracia tradicional do Senado. Ao cruzar o Rio Rubicão em 49 a.C., César proferiu a célebre frase "a sorte está lançada", iniciando uma guerra civil que o coroaria ditador vitalício e centralizaria as decisões do mundo em suas mãos. Para o povo, um reformador; para os patrícios, uma ameaça ao sistema republicano.

​Séculos depois, cruzando o Atlântico e adentrando o cenário político do Nordeste brasileiro, o nome de batismo se repete em outra trajetória de ascensão e centralização de poder: a do Deputado Federal Júlio César de Carvalho Lima, um dos nomes mais longevos e influentes da bancada do Piauí no Congresso Nacional.

Das Origens à "Área de Segurança Nacional"

​Se o César romano pavimentou seu caminho através das legiões militares, o Júlio César piauiense construiu sua epopeia a partir da resiliência e das alianças estratégicas. Menino de família humilde, ele desafiou as estatísticas de sua época ao conseguir se formar em Direito. Contudo, foi a habilidade de transitar pelas esferas do poder tradicional que mudou definitivamente o seu destino. Através dos laços familiares com seu então poderoso sogro, o Desembargador Paulo Freitas, o jovem advogado infiltrou-se nos bastidores da política estadual.

​Essa articulação rendeu-lhe uma nomeação que seria o seu próprio "Rubicão", o comando da prefeitura de Guadalupe. Naquele período, o município não era apenas mais uma engrenagem no mapa piauiense, era considerado Área de Segurança Nacional pelo regime vigente, por abrigar em seu território a Usina Hidrelétrica de Boa Esperança. Ali, vigiado de perto pelos olhos do Estado e gerindo um ponto estratégico para o desenvolvimento do Nordeste, Júlio César de Carvalho Lima sedimentou sua reputação de operador político habilidoso e gestor de entregas. Durante décadas na Câmara Federal, consolidou-se como um parlamentar de resultados, que efetivamente canalizava serviços e recursos para os municípios piauienses, muitas vezes sem o devido alarde ou o reconhecimento público proporcional ao volume de suas ações.

O Fenômeno Georgiano e o Tabuleiro Familiar

​No entanto, a física política dita que o poder não tolera o vácuo e a expansão é sua lei natural. O que outrora era a atuação destacada de um patriarca transformou-se, nos últimos anos, em uma das mais impressionantes dinâmicas de poder familiar do Piauí. O catalisador dessa nova era é Georgiano Neto, filho de Júlio César e da Senadora Juçara Lima, jovem deputado estadual que caminha para encerrar seu terceiro mandato com contornos de fenômeno eleitoral.

​Nas eleições de 2022, Georgiano rompeu a barreira mítica dos 100 mil votos, marca que, por si só, o catapultaria com folga para a Câmara Federal, deixando membros de outras tradicionais oligarquias locais com pouco mais da metade de sua votação. Trata-se de um desempenho que se justifica por uma rotina obsessiva de dedicação ao mandato, 24 horas por dia, retroalimentada por um objetivo claro, o Palácio de Karnak. Ninguém na planície duvida de que Georgiano pavimenta sua estrada para governar o Estado.

​A contradição surge quando o eleitor observa o restante do tabuleiro. A política piauiense transformou-se em um intrincado jogo de escambos e cadeiras cativas que beira o patrimonialismo. A esposa de Júlio César, Juçara Lima, ocupa hoje a cadeira de senadora na vaga de Wellington Dias, atual Ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Agora, em uma movimentação que testa a elasticidade e a percepção do eleitorado, os planos de expansão se assemelham a um jogo de tabuleiro privado: Júlio César projeta sua candidatura ao Senado Federal; para não desguarnecer a Câmara Federal, escala o próprio filho, Georgiano Neto, como seu herdeiro na bancada em Brasília; e a valiosa vaga de Georgiano na Assembleia Legislativa do Piauí não fica órfã, pois entra em cena outro rebento da dinastia, Júlio César Filho, para manter o espólio intacto.

​A Sombra dos Idos de Março: O Poder Sem Contrapeso

​Essa engenharia de substituições e acomodações não é exclusividade deste clã. Ela espelha o modelo de outras lideranças locais, como o próprio Wellington Dias, que de origens humildes construiu um império político que alçou sua esposa, Rejane Dias, a cargos majoritários e, posteriormente, a uma vaga vitalícia de conselheira no Tribunal de Contas do Estado, mesmo sob o manto de investigações ainda em curso pela Polícia Federal, denominada como Operação Topique.

​Pois não é que agora, numa troca que beira o infantil, como quem a ninguém deve nenhuma explicação, especialmente quando se trata do eleitor piauiense, Wellington mete o filho Vinícius para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa e, para consolidar a rachadinha dos mandatos, coloca sua filha Yasmin Dias como primeira suplente na chapa de senador encabeçada por Júlio César! Wellington, de menino humilde, com jeito de matuto, de quem ninguém tem queixas de ser arrogante, e que a todos, tudo promete e nada entrega, se fez vereador, deputado estadual, deputado federal e governador quatro vezes, além de ser eleito senador duas vezes.

​No Piauí de hoje, a indústria, o comércio, os serviços e o pujante agronegócio parecem não ter o cacife ou a articulação necessária para fazer contrapeso a esses clãs familiares firmemente instalados. São preciosidades dos escambos familiares dos nossos políticos, que trocam de lugar, mas de lugar nada trocam, nada mudam, continuam como antes, apenas ampliando o poder familiar.

​Houve um tempo em que a atividade parlamentar era encarada como uma missão pública quase sacra; qualquer deslize, imagem ambígua ou suspeita ética era motivo de rubor e, não raro, de renúncia em nome da honra. Hoje, a realidade é outra. Assistimos à cooptação de parcelas significativas dos meios de comunicação, muitas vezes alimentados por verbas publicitárias governamentais, operando uma engrenagem de desinformação. Transforma-se a máquina pública e o dinheiro do contribuinte em uma fábrica de miragens midiáticas, onde ações de Estado são vendidas como conquistas pessoais, desenhadas exclusivamente para perpetuar o domínio de poucas famílias.

​A ironia que conecta o Júlio César de Roma ao cenário piauiense ganha contornos dramáticos quando analisamos a natureza da traição. Na Roma Antiga, nos Idos de Março de 44 a.C., Júlio César foi traído e apunhalado por aqueles em quem confiava, sob o falso pretexto de se salvar a República. No Piauí da modernidade, contudo, a traição ocorre de forma inversa e silenciosa, perpetrada contra o próprio povo piauiense que, sistematicamente mal informado e alienado por propagandas oficiais, serve apenas de massa de manobra para chancelar as ambições dessas dinastias. Ao digitar seus votos nas urnas, o cidadão legitima mandatos parlamentares que se movem por interesses meramente hereditários e patrimonialistas, aprisionando o Estado em um ciclo onde os representantes se perpetuam no poder, mas nunca provam servir, de fato, aos reais interesses da sociedade. O império dos clãs familiares parece inabalável, mas, na política como na história, o Rubicão sempre guarda suas surpresas.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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