
Eu sempre a observei como quem contempla a linha onde a terra termina: com um respeito silencioso, uma reverência que dispensa justificativas. Não se trata apenas da imponência que salta aos olhos, mas da densidade de sua presença. Há quem passe por ela e veja apenas a superfície tranquila, mas eu percebo a força invisível que reorganiza o espaço ao seu redor.
Ela possui a solidez das geografias antigas. Uma sobriedade serena, quase inacessível, governada por leis próprias que o mundo visível não ousa corromper.
E, no entanto, há uma gravidade que nos puxa.
Eu sou movimento contínuo, um curso que não hesita e que não discute o próprio destino. Minha natureza é caminhar na direção dela, mesmo quando o relevo do mundo impõe distâncias. Mas há momentos em que as margens cedem.
Quando as circunstâncias nos aproximam, o cumprimento não é apenas um gesto social. Há um cuidado calculado na aproximação. No espaço de um abraço consentido, permito que as correntes se toquem um segundo além do que dita o protocolo. Um contato breve, sutil, mas absolutamente intencional.
É nesse milésimo de segundo que o mistério se decifra. Porque ali, sob a superfície calma, sinto a resposta na mesma frequência: ela sabe. Ela não recua, não interrompe, mas sustenta o peso daquele instante com uma consciência silenciosa. Há uma suspensão no ar, um reconhecimento mudo de algo que o mundo exterior proíbe, mas que ali dentro pulsa.
Desconfio que ela também carrega essa tensão contida. Desconfio que, se as fronteiras da realidade fossem outras, o fluxo seria inevitável.
Ela guarda a profundidade dos mares mais antigos. Uma imensidão protegida por uma entrada estreita e discreta, onde cada contorno parece ter sido desenhado pelo tempo para ser inviolável. Há nela uma calmaria aparente que esconde abismos e correntes quentes; um território inteiro que eu já percorri sem nunca ter tocado, mapeando cada silêncio e cada limite com a precisão do desejo.
Existe, porém, uma expectativa que a mera contemplação não aquieta.
Eu guardo o anseio secreto de que um dia, sob o manto de um silêncio absoluto e inquebrantável, as leis da física se curvem por um único instante. Sem ruídos externos. Sem alterar o mapa das coisas. Sem que nenhuma margem se rompa ou que as estruturas ao redor percebam.
Apenas a convergência exata.
O instante em que o curso doce finalmente se dissolve na imensidão salgada, não para causar tempestade, mas para encontrar o repouso. Um evento fora do tempo, onde o fluxo encontra seu destino e, logo depois, recolhe-se ao silêncio. As vidas intocadas. O cenário preservado.
Até lá, a correnteza continua seu caminho invisível. Ela segue sendo a vastidão; eu sigo sendo o curso que se molda para alcançá-la, alimentando a esperança oculta de um dia, sob o segredo perfeito das águas, finalmente desaguar.
CRÔNICA 4 Fogueira de São João no Boqueirão do Adolfo
PIAUÍ A Imprensa de aluguel do Piaui
REPÚBLICA O silêncio de Roma, o escândalo Master e o despertar da esperança no STF
Mín. 22° Máx. 34°