
Quase no anoitecer do século passado, o Piauí assistia à consolidação de um de seus maiores patrimônios intelectuais e artísticos. João Cláudio Moreno, talvez o mais genial e agudo humorista que o Brasil produziu nas últimas décadas, já lotava teatros e praças com sua capacidade única de traduzir a alma humana e a política local por meio da sátira e da observação implacável.
Foi em um desses palcos, na cidade de Picos, que cruzaram-se os destinos de João Cláudio e de um jovem conterrâneo que perambulava pelos bares da região carregando pouco mais que um teclado debaixo do braço e uma ambição desmedida. Era Frank Aguiar, antes de se tornar o "Cãozinho dos Teclados". Diante do já consagrado humorista, o aspirante a cantor viu a chance da sua vida e pediu para "abrir" o show. João Cláudio, no auge de sua posição, desdenhou e fez piada: "Deixa esse besta".
Anos depois, com Frank Aguiar estourado em todo o território nacional, vendendo milhões de discos e batendo ponto nos maiores programas da TV aberta, o próprio João Cláudio Moreno passaria a resgatar esse episódio em suas apresentações, dividindo com a plateia uma reflexão profunda sobre o sucesso: "Frank Aguiar toca mal, canta mal... mas sacou uma". Frank havia enxergado uma oportunidade única e, contra prognósticos e talentos técnicos puristas, agarrou-a.
Essa máxima de João Cláudio Moreno, o ato de "sacar uma" oportunidade no momento exato em que ela se apresenta, serve como a chave de leitura perfeita para compreender outro fenômeno piauiense contemporâneo: a ascensão fulminante do Governador Rafael Fonteles.
Dos Corredores da Educação ao Topo do Palácio de Karnak
Antes de se tornar a figura central do Executivo estadual, Rafael Fonteles operava nos bastidores da iniciativa privada. No mercado da educação, mais especificamente na disseminação de ensino via internet para escolas do interior, ele começou a pavimentar seu caminho financeiro e empresarial. Aqueles que frequentavam a Secretaria de Educação do Estado em um passado não tão distante lembram-se da cena: o jovem empresário, munido de calhamaços de papéis debaixo do braço, perambulando de porta em porta nos corredores burocráticos para tratar de licitações e contratos de interesse de sua empresa.
Foi ali, observando a engrenagem pública por dentro, que o empresário "sacou" a sua grande oportunidade política. Ele percebeu, com rara nitidez, o vácuo de poder que começava a se desenhar por trás da figura outrora hegemônica do Partido dos Trabalhadores no estado, encarnada pelo atual Senador Wellington Dias. Onde muitos viam apenas burocracia, Rafael enxergou o espaço ideal para sua transição: de empresário do ramo educacional a Secretário de Fazenda e, num salto duplo mortal na política, a Governador do Piauí.
O Oceano que Separa o Suor do Berço de Ouro - Casa Grande e Chão Batido
No entanto, qualquer comparação entre o Cãozinho dos Teclados e o atual Governador exige uma ressalva justa, pois há um oceano de distância que os separa no que diz respeito ao esforço e ao suor derramado para alcançar seus objetivos pessoais. Frank Aguiar construiu seu império a partir da escassez, batendo de frente com as portas fechadas da incompreensão e do preconceito estético.
Rafael Tajra Fonteles, por outro lado, nasceu no seio acolchoado com penas de ganso dinamarquês. Criado no coração da elite dourada da zona leste de Teresina, sua trajetória empresarial e política foi impulsionada por um ambiente de privilégios e facilidades que o blindaram das intempéries sofridas pelo cidadão comum.
Esse histórico de mimos desde o berço reflete-se, segundo observadores de seus bastidores, em sua postura no exercício do poder absoluto. Há quem aponte que o governador nutre uma profunda dificuldade em ser contrariado. Quando o cenário não lhe favorece ou quando seus planos encontram resistência, sua reação costuma ser descrita como a de uma criança de quem tiraram o pirulito da boca: o pragmatismo dá lugar ao melindre.
A Solidão da Concordância
O comportamento pessoal de Rafael Fonteles com aqueles que outrora lhe serviam de anteparo ou base de apoio mudou drasticamente com a caneta na mão. O tratamento, muitas vezes pautado pela indiferença, transforma-se em isolamento sumário diante de qualquer faísca de questionamento. Quem ousa dirigir-lhe uma crítica, por mais construtiva que seja, é imediatamente rebaixado ao rol comum dos dispensáveis e excluído de seu círculo de convivência e influência.
Ao aceitar ao seu redor apenas aqueles que estão dispostos a professar um constante e incondicional "amém" para todas as suas decisões, o governador flerta com uma perigosa armadilha psicológica e política. Essa intolerância ao dissenso e a exigência de subserviência cega assemelham-se ao modus operandi histórico de regimes ditatoriais, onde a divergência é tratada como traição e o debate é sufocado pelo eco do próprio ego.
Rafael Fonteles provou ser um exímio estrategista ao "sacar" a oportunidade que o levou ao topo do Piauí. Resta saber se o garoto prodígio da zona leste, agora transformado em chefe da nação piauiense, compreenderá a tempo que o verdadeiro teste de um líder não está na rapidez com que ele sobe os degraus do poder, mas na sua capacidade de ouvir a sinfonia das ruas, mesmo quando ela desafina do seu próprio teclado.
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