
O Brasil já foi um país onde a simples suspeita de irregularidade bastava para fulminar reputações políticas. Parece inacreditável diante da atual realidade de degradação moral, mas há poucas décadas o primeiro escalão do poder caía por deslizes que hoje não gerariam sequer um pedido de desculpas. Na história das nações, trinta anos são apenas um sopro institucional. E é justamente por isso que os exemplos do passado precisam ser resgatados, para expor, sem anestesia, o tamanho do abismo ético em que o país mergulhou.
Num artigo publicado pelo jornalista Carlos Alberto Sardenberg no O Globo, há o resgate de episódios emblemáticos do governo de Itamar Franco, passagens que hoje parecem pertencer a uma civilização institucional extinta.
Em 1993, o então ministro da Fazenda, Eliseu Resende, foi demitido após a revelação de que uma empreiteira havia custeado uma despesa de hotel de US$ 830 durante uma viagem a Nova York. Não havia desvios bilionários, malas de dinheiro vivo ou contas secretas no exterior; bastou a constatação de uma vantagem incompatível com a liturgia do cargo. Logo depois, Henrique Hargreaves, homem de absoluta confiança do presidente, foi imediatamente afastado diante de suspeitas na CPI do Orçamento, retornando apenas após provar sua inocência, um processo tão doloroso sob o manto da honra que lhe custou um infarto.
Naquele tempo, a suspeita gerava vergonha e a denúncia exigia consequências. Hoje, a suspeita virou protocolo, a denúncia virou rotina e a impunidade virou método.
O estelionato moral e a era do escândalo profissionalizado
Esse processo de apodrecimento institucional não ocorreu por geração espontânea. Ele tem método, paternidade e data de início: consolidou-se a partir de 2003, com a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao Executivo federal.
A maior fraude do PT não foi apenas financeira, mas moral. O partido passou décadas erguendo-se como o paladino autoproclamado da moralidade pública, apontando o dedo indicador para os vícios da política tradicional e prometendo uma ruptura ética sem precedentes. O que entregou ao país, contudo, foi o maior estelionato político da história republicana. O PT não combateu os velhos vícios; ele os profissionalizou, os financiou com o caixa do Estado e os elevou a uma escala industrial.
O retrospecto desde 2003 é uma sucessão ininterrompida de escândalos que anestesiou a nação. Tudo começou a se desenhar publicamente com o Mensalão, que promoveu a institucionalização da compra de apoio parlamentar, transformando o Congresso Nacional em um balcão de negócios operado com dinheiro público. Anos depois, o esquema foi agigantado pelo Petrolão, revelado pela Operação Lava Jato, que se tornou o maior esquema de corrupção sistêmica de que se tem notícia no planeta, sangrando a Petrobras e as principais estatais do país para financiar projetos de poder, enriquecer operadores e sustentar uma engrenagem político-partidária cleptocrática. Esse cenário consolidou a alarmante banalização das cifras, fazendo com que o país que outrora demitia ministros por US$ 830 passasse a assistir passivamente à apreensão de bunkers com R$ 51 milhões em dinheiro vivo e à devolução de bilhões de reais por criminosos confessos.
A destruição do constrangimento e a militância do erro
Todavia, o crime mais perverso desse projeto de poder não reside nos bilhões desviados da saúde, da educação e da infraestrutura. O dano mais profundo foi a destruição sistemática do constrangimento moral.
Sob a batuta do petismo, a corrupção deixou de provocar vergonha e passou a provocar justificativas. Posteriormente, passou a provocar militância. Criou-se uma inversão de valores perversa, onde o criminoso interceptado com a prova do crime não se defende com a inocência, mas agride as instituições, vitimiza-se e alega perseguição política, lawfare, ou narrativa golpista.
A culpa foi transferida do corrupto para quem o investiga. Santos viraram demônios e réus confessos foram elevados à condição de mártires políticos. Diante dessa blindagem ideológica, a opinião pública foi deliberadamente neutralizada. A repetição contínua e torrencial de escândalos gerou uma população exausta, cínica e resignada, empurrando o cidadão de bem para a armadilha psicológica descrita pela economista Maria Cristina Pinotti: a de que não há o que fazer, transformando a honestidade em ingenuidade.
A nova casta e o legado do cinismo
A ironia que beira o escárnio é que o partido que nasceu sob o pretexto de representar as dores do trabalhador terminou por consolidar uma nova elite burocrática e nababesca. Enquanto milhões de brasileiros continuam reféns de hospitais sucateados, escolas desabando e saneamento básico inexistente, a casta política desfruta de luxos palacianos, fundos eleitorais bilionários, viagens internacionais suntuosas e uma rede de proteção jurídica que os torna praticamente intocáveis.
Esse modelo de cupidez e dependência social espalhou-se como metástase por estados e municípios, repetindo o mesmo roteiro de aparelhamento da máquina, sufocamento da fiscalização e perpetuação no poder pelo clientelismo.
A grande tragédia brasileira não é a existência da corrupção, pois a ganância é um vício humano, mas a normalização e a legalização institucional dela. É a substituição da indignação pela torcida de futebol ideológica, onde o erro do meu político é perdoado e o do adversário é odiado.
A lembrança do rigor ético de Itamar Franco causa profundo desconforto na Brasília de hoje porque escancara a nossa indigência moral atual. Não que o passado tenha sido perfeito, mas nele ainda sobrevivia o medo da vergonha, o respeito à liturgia do cargo e a certeza de que a honra pública tinha um preço impagável. Ao abdicar desses valores em nome de um projeto de poder cínico e absolutista, o Brasil não apenas tolerou o roubo de suas riquezas; permitiu o roubo de sua própria dignidade.
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