
Há situações em que a explicação vem acompanhada de tantos detalhes que acaba criando mais perguntas do que respostas. E há outras em que aparece uma fotografia. Uma fotografia de verdade. Colorida, nítida, com foco — e sem Photoshop de botequim.
No caso do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a fotografia encontrada pela Polícia Federal no celular de Vorcaro recoloca a discussão em outro patamar. A PF encontrou a imagem durante a extração de dados do aparelho. A PGR confirmou a autenticidade da fotografia aos jornais Folha de S.Paulo e O Globo.
E o que aparece na foto? Gonet e Vorcaro juntos em Londres, em abril de 2024. Gonet aparece segurando um charuto, diante de uma mesa com copos de uísque. O registro teria ocorrido durante um evento patrocinado pelo Banco Master, que incluiu degustação de Macallan e charutos. Segundo reportagens, o encontro ocorreu no George Club, em Londres.
Pronto. Está aí o famoso “batom na cueca”.
Calma. Antes que alguém pegue o fósforo e acenda o charuto, é preciso fazer a distinção que o jornalismo sério exige: a fotografia comprova que Gonet e Vorcaro estiveram juntos naquele evento. Não comprova, sozinha, amizade, intimidade, favorecimento, tráfico de influência ou qualquer crime. Uma foto é prova de um encontro; não é, por si só, prova de ilícito.
Mas também não é possível fazer de conta que a fotografia não existe.
Quando o assunto veio à tona no STF, Gonet afirmou que não tinha relacionamento de proximidade com Vorcaro. Disse que o único encontro ocorreu em abril de 2024, na presença de várias autoridades, e classificou uma ligação intermediada por advogado como “brevíssima e banal”.
Aí entra o detalhe que está fazendo a fotografia ocupar tanto espaço no debate.
Ninguém está dizendo que a imagem mostra dois velhos compadres trocando segredos ao pé do ouvido. Mas também não é exatamente uma foto de dois desconhecidos esperando o ônibus.
Eles estavam no mesmo ambiente, lado a lado, em um evento social que tinha entre suas atrações justamente aquilo que aparece no registro: charuto e uísque.
E o assunto fica ainda mais curioso quando se olha para as mensagens extraídas do celular de Vorcaro.
Em março de 2025, uma mensagem atribuída a Gonet e encaminhada pelo advogado Ciro Soares a Vorcaro dizia:
“Oba!!! Tomara que tenha charuto e Macallan!”
A mensagem fazia referência a outro evento em Londres, organizado pelo grupo ligado ao Banco Master. O encontro acabou não acontecendo. O próprio Poder360 já havia noticiado que Gonet demonstrara interesse em participar do evento.
Ora, minha gente, Macallan e charuto podem até não configurar relação de proximidade. Mas também não parecem ingredientes de uma relação absolutamente distante.
É justamente aí que está o ponto jornalístico da história.
A pergunta não é mais se Gonet conhecia Vorcaro. A fotografia resolveu essa parte.
A pergunta agora é: qual era a natureza dessa relação? Quantos contatos existiram? Quem os intermediava? E houve alguma consequência institucional desses contatos?
Essas respostas ainda precisam ser dadas.
O velho ditado popular ensina que “uma foto vale mais que mil palavras”.
No caso em questão, talvez seja preciso fazer uma pequena atualização: uma foto vale mais que mil explicações quando o assunto é saber se duas pessoas estiveram juntas.
E aqui não estamos falando de uma imagem perdida no WhatsApp de algum grupo de família. Estamos falando de um arquivo extraído pela Polícia Federal do celular de Vorcaro e cuja autenticidade foi confirmada pela PGR.
A fotografia foi enviada a Vorcaro pelo advogado Ciro Soares em junho de 2025, acompanhada da mensagem “PG me mandou”, referência às iniciais de Paulo Gonet.
É esse detalhe que deixa a história ainda mais cabeluda.
Porque uma coisa é dizer: “Conheci o sujeito em uma solenidade, apertei a mão e nunca mais vi”.
Outra é descobrir que existe uma fotografia do encontro circulando no celular do próprio banqueiro e acompanhada de uma mensagem que atribui a origem da imagem ao procurador-geral.
Aí o angu engrossa.
As mensagens analisadas pela PF também registram intermediações de Ciro Soares entre Vorcaro e Gonet. Há ainda referências à possibilidade de o filho do procurador-geral acompanhar o grupo em viagem a Londres. Em uma das conversas, diante da possibilidade, Vorcaro teria respondido: “Óbvio, né”.
Nada disso, isoladamente, demonstra crime.
Mas tudo isso compõe um conjunto de fatos que ajuda a explicar por que o episódio deixou de ser uma simples fotografia de um encontro social.
E é exatamente por isso que a transparência é tão importante.
Gonet não ficou calado diante das revelações. Ele questionou a validade do relatório produzido a partir das informações extraídas do celular de Vorcaro e sustentou que o ministro André Mendonça não teria competência para determinar aquela produção da maneira como ocorreu.
Durante a sessão do STF, Mendonça fez questão de separar as referências a Gonet das demais informações analisadas. Segundo o ministro, ele não estava fazendo juízo de valor sobre o procurador-geral.
Essa ressalva é importante.
Questionar a validade de uma prova é uma coisa. Negar que a fotografia exista é outra.
E ninguém está dizendo que Gonet perdeu o direito à presunção de inocência. Muito pelo contrário. Se houver qualquer suspeita de irregularidade, ela precisa ser apurada com contraditório, documentos e devido processo.
Mas também é razoável perguntar: se a fotografia é autêntica, se o encontro ocorreu e se existem mensagens posteriores sobre novos contatos, qual é exatamente a dimensão dessa relação?
Talvez seja bom deixar isso bem claro: o problema não é Gonet fumar charuto.
Também não é beber Macallan.
Cada adulto responde pelos próprios hábitos — desde que dentro da lei.
O problema institucional é outro: a relação entre uma autoridade máxima do Ministério Público e uma pessoa que se tornou personagem central de uma investigação de enorme repercussão.
Quando essas duas pontas se encontram, a régua da transparência precisa ser alta.
Ainda mais quando surgem fotografias, mensagens, intermediários e convites.
É por isso que o Conselho Superior do Ministério Público Federal marcou para 25 de setembro uma sessão para analisar as circunstâncias envolvendo Gonet e Vorcaro.
A fotografia não é uma sentença.
Não condena Gonet.
Não prova favorecimento.
Não demonstra, sozinha, qualquer irregularidade.
Mas também não é uma miragem.
Ela existe. Foi encontrada pela PF. A autenticidade foi confirmada pela PGR. E mostra Gonet e Vorcaro juntos em um evento em Londres.
Por isso, a questão deixou de ser simplesmente “Gonet conhecia Vorcaro?”
A resposta é conhecida: sim, eles estiveram juntos.
Agora vem a pergunta que realmente interessa:
qual era a extensão dessa relação e houve alguma repercussão dela na atuação institucional do procurador-geral?
Até que essas perguntas sejam respondidas, a fotografia continuará ali — quietinha, sem dar entrevista, sem fazer discurso e sem precisar de advogado.
Como diz o velho ditado: “uma foto vale mais do que mil palavras”.
E, neste caso, talvez seja justamente por isso que tanta gente esteja olhando para ela.
Porque, quando aparece o “batom na cueca”, fica difícil explicar que a cueca estava limpa.
E A LEI ELEITORAL? Bolsa Família: a decisão de Gilmar Mendes muda o entendimento do STF ou apenas distingue o caso de Lula do caso Bolsonaro?
CAPA DA SEMANA Os quatro juízes do apocalipse?
RELAÇÕES PERIGOSAS Banco Master: tem caroço nesse angu, e a cada descoberta da PF surgem novas perguntas sobre o STF Mín. 27° Máx. 38°