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Crônica CRÔNICA 1

O oráculo de si mesmo

O homem que explica o sol sem nunca ter olhado para o céu

05/06/2026 às 10h11 Atualizada em 05/06/2026 às 10h49
Por: Arthur Feitosa
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Foto: Reprodução
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Tenho um conhecido, desses que acreditam ter recebido de Deus o monopólio da razão e que vive sob a autoproclamada missão de ensinar o mundo a pensar. Sobre qualquer assunto, ele possui um parecer definitivo: política, economia, física quântica ou o ponto exato da tapioca. Fala com a mesma solenidade com que o pavão abre a cauda, não para esclarecer, mas para deslumbrar.

É o tipo que discute até com o eco. Corrige, interrompe, decreta sentenças com ar professoral, mesmo quando mal compreende o tema. Não age por malícia, mas por fé, a fé inabalável de quem acredita que o universo é apenas uma extensão da própria lógica.

Entre os amigos, tornou-se folclore. Todos o conhecem, poucos o escutam, e nenhum se arrisca a confrontá-lo. Conversar com ele é como tentar explicar poesia a um papagaio: ele repete, gesticula, mas não entende. Ainda assim, é tolerado com a paciência que se reserva aos inocentes úteis ou aos vaidosos incuráveis.

Quando o assunto lhe escapa, o que ocorre com frequência quase científica, improvisa teorias com a confiança de quem cita Aristóteles de memória e ainda corrige o filósofo. É o dono da verdade, dessas verdades frágeis que se dissolvem ao primeiro sopro da razão.

Seu palco preferido é uma patisserie elegante da cidade, onde encena sabedoria entre um café duplo e um croissant amanteigado. Ali, empresários, advogados e desocupados de luxo o escutam em silêncio, não por reverência, mas por instinto de sobrevivência. Debater com ele é como tentar apagar incêndio com gasolina.

É nesse cenário que ele se revela em plenitude: o oráculo do cotidiano, sempre munido de um celular que ergue como se fosse um estandarte da verdade. A cada afirmação, lá está ele, puxando o aparelho para exibir um vídeo ou uma fotografia, como quem precisa provar o inquestionável. Especialmente quando fala de política piauiense, abre a galeria do celular com a solenidade de quem revela documentos secretos de Estado, mostrando fotos com vereadores, prints de conversas, registros de reuniões, tudo para confirmar que, além de sábio, também é influente.

Foi lá, entre goles e gestos, que outro dia descobriu um novo alvo para sua eloquência: esse articulista político que, segundo ele, “só escreve bem porque usa inteligência artificial”. Ninguém ousou contestá-lo. Afinal, quem desafia um homem que tem razão até quando erra?

O que ele ignora ou finge ignorar,  é que esse articulista é respeitado justamente por não temer dizer o que muitos se calam. Escreve sem pedir licença, movido por um raro compromisso com a verdade e com o resgate da essência perdida do jornalismo, aquele que, em tempos menos cínicos, era chamado de quarto poder. A imprensa de outrora tinha olhos e ouvidos atentos à voz do povo; não se ajoelhava diante dos poderosos, nem se vendia por cargos, anúncios ou favores. Denunciava, incomodava, despertava consciências. Era o freio moral de uma sociedade que ainda acreditava na vergonha.

É essa chama que o articulista tenta reacender, denunciando a farsa, desmascarando a corrupção e alertando sobre o preço de votar mal. Sua escrita não serve à conveniência, mas à consciência. E por isso incomoda tanto os personagens medíocres que, há décadas, parasitam os cofres públicos e ainda têm a audácia de posar de benfeitores, enquanto o Estado sangra e o povo aplaude.

O oráculo segue, altivo e convicto, persuadido de que o sol só nasce porque ele o interpreta. E sempre barulhento. Mas é só!

O articulista continua escrevendo, com cérebro, alma e ironia, e o sábio segue falando, com vaidade, saliva e certeza. No fim, é sempre assim: uns escrevem para iluminar, outros falam apenas para se ouvir.

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Sobre Arthur Feitosa - Executivo e articulista político do portal Gazeta Hora1
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