
Neste sábado (25), o som grave e os lasers do DJ Alok vão ecoar na Arena Carhoo, em Teresina. A festa, bancada com R$ 1,8 milhão dos cofres públicos estaduais sem licitação, terá dois ambientes distintos: a "geral" para a população e um espaço VIP pago, com bebida à vontade, privatizando o lucro em cima de um palco financiado por impostos.
A contradição, porém, vai muito além do camarote open bar. Ela escancara uma perigosa seletividade judicial e moral. Em agosto de 2025, a Justiça do Piauí, atendendo a um pedido firme do Ministério Público Estadual (MPPI), mandou cancelar a apresentação do mesmo DJ Alok na cidade de Cocal. O motivo? A Prefeitura havia decretado calamidade financeira e os gastos ultrapassariam os R$ 3 milhões.
Agora, o Governo do Estado, afundado em dívidas bilionárias, patrocina o mesmo artista. E o Ministério Público piauiense? Silêncio absoluto.
Dois pesos, duas medidas e R$ 1,8 milhão na conta errada
A operação estadual é confirmada em Diário Oficial. O contrato nº 084/2026, firmado pela Secretaria de Turismo, usou a modalidade de inexigibilidade de licitação, embora o evento conte com venda de ingressos e espaços comerciais privados.
Chama atenção que, no sistema do Tribunal de Contas do Estado, a empresa contratada aparece com nomes distintos: Kalor Ltda e Caju Produções, sob o mesmo CNPJ. A justificativa oficial é genérica: "promoção do turismo".
É exatamente contra esse tipo de uso da máquina pública que o próprio MPPI foi implacável em Cocal. Na decisão que derrubou o show no interior, o juiz Anderson Brito da Mata foi cirúrgico ao classificar como inaceitável uma cidade quebrada gastar milhões com cachês. O promotor de Justiça que atuou no caso se baseou no estado de emergência para barrar a festa.
Ora, qual a diferença para a realidade do Tesouro Estadual?
A dívida que financia o camarote VIP
O governador Rafael Fonteles (PT) comemorou o contrato milionário do show ao mesmo tempo em que articula um megapacote de endividamento. Em 2025, o estado já pagou R$ 209 milhões por mês em parcelas de empréstimos, dinheiro que sai dos impostos do povo.
Em abril de 2025, o governador enviou à Assembleia um novo pedido de R$ 5,8 bilhões em empréstimo com garantia da União. O histórico é grave. Somam-se dezenas de operações de crédito, dívidas que atravessarão décadas, enforcando a capacidade de investimento do estado em saúde e infraestrutura. Enquanto isso, tragédias como a de Barras, onde uma família morreu soterrada em uma casa precária, e a crise no Liceu Piauiense seguem sem a devida resposta do governo.
O sentimento das ruas, captado por influenciadores e cidadãos na internet, além de nós jornalistas, não é contra a cultura, mas contra a montanha de dinheiro público jogada em um evento isolado. O problema não é o show, é a prioridade.
O silêncio eloquente
O Gazeta Hora1 questiona: por que o Ministério Público, tão célere em barrar os festejos de uma prefeitura quebrada, não usa a mesma régua para o Palácio de Karnak? Se havia "calamidade financeira" e "risco de dano ao erário" em Cocal para um show de R$ 1,8 milhão, por que não há em um estado que deve bilhões?
A resposta pode estar na zona de conforto política ou na complexidade de se enfrentar o chefe do Executivo estadual. O fato é que, enquanto o Ministério Público se cala, o governador Rafael pega o dinheiro do contribuinte e entrega de bandeja para a iniciativa privada. É dinheiro que deveria estar tapando buracos, reformando escolas, socorrendo quem está na miséria. Mas não. Está indo para o bolso de produtora de evento, com camarote VIP e open bar.
Neste sábado, a batida vai tocar. Mas o som que vai martelar na cabeça do povo é outro: o barulho surdo da dívida crescendo, o silêncio de quem deveria fiscalizar, ee a certeza amarga de que, para quem governa, R$ 1,8 milhão para um DJ é investimento, e saúde, educação e saneamento são sempre "para o próximo ano".
ELEIÇÕES 2026 Direita sinaliza união para enfrentar Lula nas eleições de 2026
ALERTA Cortes de Lula aumentam risco de falhas na aviação e acendem alerta para segurança dos voos
VAI PIORAR TUDO! Trabalhar menos pode custar mais: entenda o perigo escondido na PEC que acaba com a escala 6x1
Mín. 22° Máx. 34°