
Confesso que me envergonhei quando assisti ao vídeo de Lula reagindo a um jornalista que tentou fazer uma pergunta em inglês, durante visita a Washington. A resposta do presidente foi direta: "Querer que eu entenda inglês é demais." O riso que se seguiu, daqueles de quem acha graça no próprio limite, me pareceu mais revelador do que qualquer discurso oficial.
Desde a redemocratização, em 1985, tivemos um único presidente capaz de se comunicar com fluência no idioma: Fernando Henrique Cardoso. Uma exceção que confirma a regra. Sarney leu um pronunciamento constrangedor na Casa Branca de Reagan, com pronúncia que o próprio texto da época descreve como embaraçosa. Dilma Rousseff leu pronunciamentos com dificuldade evidente, e entrevistas em inglês, jamais. Jair Bolsonaro ao menos foi honesto: chamou a falta de fluência de "uma grande falha da minha formação", em pleno palco da Avenida Paulista.
Não é, porém, um problema apenas dos presidentes. É um retrato fiel do país que eles representam.
O Brasil ocupa o 75º lugar entre 123 nações no Índice de Proficiência em Inglês da empresa EF. Apenas 5% da população tem algum conhecimento da língua, e apenas 1% é de fato fluente. O que me preocupa mais do que esses números é o que eles não estão mudando. Os jovens brasileiros de hoje apresentam indicadores apenas ligeiramente melhores do que os de gerações anteriores. Estamos estagnados. Na América Latina, ficamos na 16ª posição entre 20 países avaliados.
Enquanto isso, os vizinhos seguem em frente. No Peru, Toledo fez mestrado e doutorado em Stanford. No Equador, o atual presidente Daniel Noboa estudou em Nova York e Harvard. Na Colômbia, três presidentes seguidos, Uribe, Santos e Duque, dominavam o inglês e tinham diplomas em universidades americanas. Na Argentina, Macri discursou em inglês em diversas ocasiões. Uruguai, Chile, mesma história.
Não é vaidade acadêmica. É capacidade de negociar diretamente, de construir relações nos bastidores dos grandes encontros internacionais, aqueles momentos informais nos corredores e jantares onde muito do que realmente importa é decidido, longe das câmeras e dos intérpretes.
Existe, claro, o argumento de que grandes líderes não precisam de inglês para liderar, de que a competência diplomática é mais importante do que a fluência linguística. Concordo em parte. Mas esse argumento, no Brasil, virou muleta. Virou desculpa para não se exigir mais.
A prova mais absurda disso é o caso do atual presidente da Apex, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, cuja missão é literalmente conectar o Brasil ao mundo. Ele chegou a alterar o estatuto da instituição para retirar a exigência de fluência em inglês e, assim, poder assumir o cargo. E ainda declarou publicamente que "o meu inglês é de viagem, não deixa de me atender."
O inglês é o idioma das negociações multilaterais, da diplomacia econômica, da circulação internacional. Um brasileiro negocia com um chinês em inglês. Um pesquisador latino-americano participa de redes globais em inglês. A língua deixou de pertencer aos americanos ou aos britânicos e se tornou uma ferramenta de mediação global. E nós, sistematicamente, optamos por não dominá-la.
Isso tem raiz histórica. A escola pública tratou o inglês por décadas como disciplina periférica, enquanto o mercado privado o transformou em símbolo de mobilidade social, algo para quem pode pagar curso de idiomas. Somos uma nação lusófona cercada por hispanofalantes, com o inglês como pressão externa que nunca virou exigência interna de verdade.
O resultado é que, enquanto outros países formam líderes com visão global desde cedo, nós exportamos ao mundo presidentes que precisam de intérprete para perguntar o cardápio. Não me conformo com isso. E você também não deveria.
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