
Quando soube que canais oficiais do Irã elogiaram uma reportagem exibida no Fantástico, não interpretei isso como curiosidade jornalística. Interpretei como um sinal de alerta.
O Fantástico já foi referência absoluta do jornalismo televisivo brasileiro, líder de audiência por décadas e programa que moldou a forma como o país consumia informação aos domingos. Mesmo com a decadência evidente da Globo nos últimos anos, o programa ainda alcança um número expressivo de brasileiros. E é exatamente por isso que o episódio merece atenção redobrada.
Existe uma lógica simples que qualquer pessoa com compromisso editorial deveria conhecer: quando um regime autoritário, reconhecido mundialmente por perseguir opositores, reprimir liberdades e violar direitos básicos, resolve elogiar um veículo de imprensa, a reação natural não é comemoração. É desconfiança. Jornalismo de verdade não deve servir de vitrine confortável para narrativas de poder, muito menos as de regimes que transformaram a censura em política de Estado.
O ponto central aqui não é ter ou não acesso a um país fechado. Acesso pode até ser mérito técnico de uma equipe. O problema está no que se faz com esse acesso. Se a cobertura ignora violações, suaviza abusos ou simplesmente deixa de apresentar o contraditório, ela deixa de ser jornalismo e passa a funcionar como instrumento de legitimação. É exatamente isso que o elogio iraniano revela, não um reconhecimento neutro, mas um indicativo de alinhamento conveniente entre a narrativa produzida e os interesses do regime.

Esse episódio também traz à tona uma memória que muita gente prefere enterrar. A Globo carrega um histórico controverso e documentado de alinhamento editorial durante a ditadura militar brasileira. Não é acusação, é registro histórico. E ignorar esse passado na hora de analisar o presente não é imparcialidade, é omissão. Esse contexto ajuda a entender por que a desconfiança em torno da emissora não surge do nada.
No final, o princípio é direto. Jornalismo não escolhe lado, e muito menos o lado do poder autoritário. Se um regime como o iraniano se sente à vontade para elogiar uma cobertura, alguma coisa está errada nessa cobertura. O papel da imprensa é incomodar quem está no poder, questionar narrativas oficiais e expor contradições. Quando a imprensa passa a ser aplaudida por quem deveria investigar com rigor, ela perde sua função essencial e entrega ao público algo que não merece mais se chamar de jornalismo independente.
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