
A eleição presidencial acabou, mas a disputa pelo poder em Brasília está longe de terminar. Agora, os olhos da oposição se voltam para o Senado Federal, onde uma articulação tenta impedir que Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) seja reconduzido à presidência da Casa em 1º de fevereiro.
O movimento tem uma razão política evidente: o comando do Senado não é apenas uma cadeira de prestígio. É uma posição estratégica, com influência sobre a pauta legislativa, o funcionamento das comissões e o destino de temas que podem incomodar o governo e os próprios integrantes do Congresso.
O líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), e a senadora Tereza Cristina (PP-MS) devem se reunir nesta terça-feira (27) para tentar chegar a um entendimento sobre quem tem melhores condições de enfrentar Alcolumbre. A lógica é simples: dividir os votos da oposição pode significar entregar a vitória ao adversário antes mesmo da abertura das urnas.
O problema é que Alcolumbre não está esperando a oposição se organizar. Segundo as informações divulgadas, ele já conta com o apoio do presidente Lula e trabalha para formalizar uma aliança com partidos do Centrão. União Brasil, PP, MDB, Republicanos e Podemos aparecem entre as siglas que teriam sinalizado simpatia pela recondução.
É aí que a disputa ganha contornos mais reveladores. Enquanto o discurso político costuma destacar diferenças ideológicas, nos bastidores as alianças podem aproximar adversários que, diante do eleitor, parecem estar em lados opostos. O apoio de Lula a Alcolumbre mostra que, em Brasília, a conveniência institucional e os interesses políticos frequentemente falam mais alto do que as divisões proclamadas nos palanques.
Na oposição, Rogério Marinho tem uma vantagem numérica importante: o PL deve contar com 29 senadores na nova legislatura. Mas a eleição exige pelo menos 41 votos entre os 81 integrantes da Casa. Ter a maior bancada ajuda, mas não resolve a disputa sozinho.
Tereza Cristina, por sua vez, pode ter um perfil mais aceitável para senadores de diferentes partidos que não desejam a permanência de Alcolumbre. A avaliação de aliados é que ela teria condições de atrair votos além do campo mais diretamente ligado à oposição, desde que o PL entre no acordo e garanta apoio à sua candidatura.
A conta, porém, não fecha automaticamente. Uma coisa é contabilizar votos em conversas reservadas; outra, bem diferente, é assegurar que eles apareçam no momento da votação. A oposição afirma que Alcolumbre teria hoje cerca de 38 votos, enquanto o próprio presidente do Senado contabilizaria 48. A diferença entre essas estimativas mostra que a disputa ainda passa pelo terreno das articulações, das promessas e das negociações.
Outro fator decisivo é o interesse das lideranças partidárias. Antonio de Rueda, presidente do União Brasil, e Ciro Nogueira, presidente do PP, são apontados como defensores da recondução de Alcolumbre. Segundo relatos publicados pela imprensa, Ciro teria sinalizado apoio sem consultar previamente toda a bancada do partido.
Também foi relatada uma possível conexão entre a eleição do Senado e a disputa pela presidência da Câmara, com o apoio do União Brasil à recondução de Hugo Motta sendo mencionado nas conversas políticas. São informações atribuídas a relatos de bastidores, não fatos que, por si sós, comprovem um acordo formal.
No caso de Ciro Nogueira, a reportagem também menciona uma possível tentativa de reaproximação com o Palácio do Planalto em meio às investigações relacionadas ao Banco Master. Essa hipótese precisa ser tratada com cautela: não há, nas informações apresentadas, prova de que o apoio a Alcolumbre tenha sido negociado para interferir em investigações ou proteger qualquer pessoa.
Ainda assim, o episódio reforça uma questão legítima: até que ponto a escolha dos dirigentes do Congresso é orientada por projetos para o país e até que ponto se transforma em uma negociação permanente por espaço, influência e sobrevivência política?
Para a oposição, a eleição de fevereiro será mais do que uma disputa por cargos. Será um teste de unidade depois da derrota de Flávio Bolsonaro para Lula. Se PL, PP e aliados não conseguirem construir uma candidatura competitiva, a fragmentação poderá facilitar a permanência de Alcolumbre e ampliar a influência do atual arranjo político no Senado.
A conclusão é direta: não basta ser oposição no discurso, é preciso saber construir maioria na hora decisiva. Marinho e Tereza Cristina têm diante de si o desafio de transformar descontentamento em votos. Se não conseguirem, Alcolumbre poderá chegar à eleição com o caminho aberto para continuar no comando da Casa, respaldado por uma aliança que atravessa fronteiras partidárias e expõe as contradições da política de Brasília.
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