
Teresina se despede de uma grande mulher. Mãe, esposa, avó e profissional de uma trajetória admirável, Iracema dos Santos Rocha da Silva morreu nesta segunda-feira (26), aos 99 anos, deixando muito mais do que saudade. Deixa uma história de coragem, competência e compromisso com a Justiça.
E foi como operadora do Direito que Iracema escreveu algumas das páginas mais importantes de sua trajetória. Sua atuação marcou a advocacia piauiense e ajudou a abrir caminhos para outras mulheres em uma época em que ocupar espaços de liderança, especialmente no universo jurídico, exigia ainda mais determinação e coragem.
Natural de Floriano, nascida em 1927, Iracema não se limitou à advocacia. Foi procuradora do Estado, professora e jornalista. Na imprensa piauiense, conquistou reconhecimento como colunista social, especialmente com a coluna Agenda Nobre. Uma mulher de múltiplos talentos, que transitou por diferentes áreas sem perder de vista suas convicções.
Mas sua história não foi feita apenas de conquistas profissionais. Foi também marcada pela resistência e pela defesa das liberdades. Em 1964, durante o regime militar, Iracema foi presa e sofreu perseguição política. Pagou um preço pessoal por suas posições, mas sua trajetória não se resume à perseguição que enfrentou. Ela representa a coragem de quem não se curva facilmente diante das circunstâncias.
Na defesa dos direitos das mulheres, sua contribuição merece ser lembrada com o respeito reservado a quem ajudou a construir caminhos antes mesmo de muitas das conquistas que hoje parecem naturais. Iracema pertence à geração de mulheres que precisaram enfrentar barreiras, desafiar preconceitos e demonstrar, na prática, que competência e liderança não têm gênero.
A Associação Piauiense dos Procuradores do Estado (APPE) destacou outro marco de sua história: Iracema foi a primeira mulher a presidir a entidade. Não é pouca coisa. Em uma sociedade que por tanto tempo restringiu a presença feminina nos espaços de decisão, ocupar essa posição significou romper barreiras e deixar uma porta aberta para quem veio depois.
A Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Piauí (OAB-PI), também manifestou pesar pela morte da advogada e reconheceu sua contribuição à advocacia e à defesa das liberdades. São homenagens que ajudam a dimensionar a importância de uma mulher cuja história ultrapassa os limites de sua profissão.
Hoje, a despedida é de Teresina, do Piauí e de todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com Iracema. Para a família, ficam as lembranças da mãe, da esposa e da avó. Para a advocacia, fica o exemplo de uma profissional que honrou o Direito. Para o jornalismo e a educação, a memória de alguém que também ajudou a construir histórias nesses campos.
Aos 99 anos, Iracema encerra sua jornada terrena, mas não desaparece da história que ajudou a escrever. Porque algumas pessoas deixam saudade. Outras deixam ensinamentos. E existem aquelas que deixam um legado capaz de atravessar gerações.
Iracema Santos Rocha foi uma dessas mulheres. Sua história merece ser contada, sua coragem merece ser reconhecida e sua contribuição à sociedade piauiense merece permanecer viva na memória coletiva.
Que Deus conforte seus familiares, amigos e todos os que hoje sentem sua partida. E que o Piauí saiba honrar, como merece, a memória dessa grande mulher.
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