
O mundo pode estar entrando em uma nova era, na qual o dinheiro ficará mais caro mesmo que a inflação recue. Essa é a avaliação da Adam Capital, gestora comandada por Márcio Appel, que vê na corrida pela infraestrutura da inteligência artificial uma das principais forças por trás da alta dos juros reais.
A lógica é simples, mas poderosa. A construção de data centers, usinas de energia e toda a infraestrutura necessária para sustentar a expansão da IA exige investimentos gigantescos. Ao mesmo tempo, governos de países desenvolvidos continuam emitindo volumes elevados de títulos para financiar suas contas. Os dois movimentos disputam a mesma poupança disponível no mercado.
Para a gestora, essa concorrência pode manter os juros elevados por muito tempo. Mesmo que as expectativas de inflação diminuam, o custo real do capital pode continuar subindo. Em outras palavras, não seria necessário haver inflação persistentemente alta para que os juros permanecessem persistentemente altos.
Um dado do JPMorgan ajuda a dimensionar o fenômeno. Os cinco maiores provedores de computação em nuvem, somados à Nvidia, teriam emitido cerca de US$ 320 bilhões em dívida em 2026. Convertido para uma referência equivalente a títulos de dez anos, esse volume representa cerca de 70% da nova dívida de longo prazo emitida pelo Tesouro americano no período.
É justamente aí que surge o alerta para os mercados emergentes. Os juros dos Estados Unidos, Europa e Japão funcionam como uma espécie de referência mundial para o custo do dinheiro. Quando essas taxas sobem, investir em países emergentes passa a exigir uma remuneração maior.
A Adam chama atenção para um cenário ainda mais duro: e se os títulos americanos de dez anos voltarem a pagar mais de 6% ao ano? Esse nível foi comum em boa parte dos anos 1990, mas seria extremamente desafiador para economias como a brasileira.
O problema é que o Brasil chegaria a esse possível novo ciclo com vulnerabilidades próprias. A gestora cita o baixo desempenho do PIB em dólares em relação aos níveis de cerca de 15 anos atrás, o enfraquecimento das contas externas e uma margem discricionária no Orçamento inferior a 1% do PIB.
Na avaliação da Adam, o país teria pouco espaço fiscal para absorver uma eventual deterioração do ambiente internacional. Se o capital ficar mais escasso e caro no mundo, o Brasil poderá pagar uma conta ainda maior para continuar se financiando.
Nem todo o mercado concorda com a tese de que a corrida da IA será capaz de provocar uma elevação estrutural dos juros. O UBS considera que as empresas de tecnologia respondem por aproximadamente 20% da aceleração recente do crédito americano e afirma haver pouca evidência histórica de que o aumento da dívida privada, por si só, eleve de forma significativa o prêmio exigido nos títulos públicos.
A Allianz também reconhece o avanço expressivo do endividamento relacionado à inteligência artificial, mas avalia que o movimento atual ainda está longe de configurar uma situação de pânico nos mercados.
Enquanto a Adam aposta em tecnologia americana, dólar e títulos públicos indexados à inflação, mantendo parte do juro real travado, o UBS prefere ouro como proteção contra riscos fiscais dos Estados Unidos e perda de valor das moedas.
No Brasil, entretanto, o mercado viveu recentemente um movimento contrário ao observado no exterior. O Ibovespa acumulou 11 altas consecutivas, enquanto o dólar ficou próximo de R$ 5,10 e os juros futuros recuaram.
A questão agora é saber se essa resistência brasileira conseguirá permanecer caso o custo global do dinheiro continue subindo.
O alerta da Adam é direto: a próxima grande disputa dos mercados pode não ser apenas contra a inflação, mas contra a escassez de capital. E, nesse cenário, países com fragilidade fiscal tendem a sentir primeiro.
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