
O Brasil não está em guerra, não enfrenta uma pandemia, não atravessa nenhum cataclismo, mas a conta do governo continua crescendo como se o país estivesse em estado de emergência permanente. A dívida bruta chegou a 82,5% do PIB, o equivalente a R$ 10,9 trilhões, o maior patamar desde abril de 2021. É um número que deveria acender todas as luzes de alerta.
E o contraste é ainda mais desconcertante. Enquanto o governo amplia gastos e a dívida avança, 11.469 obras públicas financiadas com recursos federais estão paralisadas, segundo o TCU. Mais da metade das 22.621 obras mapeadas está parada, e educação e saúde concentram cerca de 70% dessas paralisações.
A economia também dá sinais de cansaço. A inflação está em 4,44%, empresas enfrentam dificuldades e centenas já recorreram à recuperação judicial. Ao mesmo tempo, o governo segue pressionado por despesas, juros elevados e um déficit nominal que chegou a R$ 1,239 trilhão em 12 meses até julho.
O discurso oficial pode até destacar o superávit primário de julho, de R$ 1,4 bilhão, mas esse número conta apenas parte da história. Quando entram os juros da dívida, o resultado muda completamente de dimensão. O problema não está apenas no quanto o governo arrecada, mas no quanto precisa gastar para sustentar uma máquina pública cada vez mais cara.
A dívida, que correspondia a 71,7% do PIB no final de 2022, já avançou mais de dez pontos percentuais durante o terceiro mandato de Lula. E há outro detalhe preocupante: piorou também o perfil dessa dívida, com forte crescimento da emissão de títulos atrelados à Selic.
Até julho, o Tesouro havia emitido R$ 2,8 trilhões em títulos indexados à taxa básica, equivalentes a 48,2% do total emitido no período. Quanto maior a exposição à Selic, maior a sensibilidade da dívida aos juros. Segundo o Banco Central, cada aumento de um ponto percentual na Selic pode acrescentar cerca de R$ 60,6 bilhões à dívida bruta.
E aí aparece o paradoxo brasileiro: gasta-se muito, endivida-se muito e, ainda assim, milhares de obras continuam paradas. O problema, portanto, não parece ser simplesmente falta de dinheiro. É também uma questão de gestão, prioridade e eficiência na aplicação dos recursos públicos.
Enquanto isso, o cidadão continua pagando a conta. Paga nos impostos, paga nos juros, paga nos preços e paga pela ausência de serviços e obras que deveriam estar funcionando. A dívida cresce, mas a sensação de entrega do Estado nem sempre acompanha esse crescimento.
O Brasil precisa discutir seriamente o tamanho e a qualidade do gasto público. Não basta gastar mais. É preciso gastar melhor. Um Estado que arrecada muito, se endivida cada vez mais e mantém milhares de obras inconclusas precisa explicar onde está a eficiência.
No resumo da ópera, o número que mais assusta talvez não seja apenas os 82,5% do PIB em dívida, mas o contraste entre o tamanho da conta e a capacidade de entrega. Se o dinheiro público aumenta, mas as obras continuam paradas, a pergunta inevitável é: para onde está indo todo esse dinheiro?
IMPOSTO DE RENDA Último lote da restituição do IR 2026 é pago nesta segunda; saiba consultar
CRISE ECONÔMICA Quebradeira empresarial: Brasil termina primeiro semestre com 6,3 mil empresas em recuperação judicial
GUERRA COMERCIAL Brasil perde força no braço de ferro com os EUA e Lula agora tenta reabrir canal com Trump
MERO JOGO DE CENA? Quem está blefando?
SALÁRIO MÍNIMO Novo salário mínimo de R$ 1.741 pode começar a valer em janeiro de 2027
CAOS ESTABELECEU-SE? Há riqueza maior?
CRISE ECONÔMICA Braskem acende o alerta: recuperação judicial vira retrato da crise financeira das empresas brasileiras
BANCO CENTRAL Pix sofre instabilidade e revela o tamanho da dependência do Brasil do sistema de pagamentos
CRISE ECONÔMICA Empresas em crise: quando a recuperação judicial vira o retrato de uma economia sufocada Mín. 24° Máx. 39°