
A recuperação extrajudicial da Braskem, anunciada nesta segunda-feira, 24 de agosto, é muito mais do que um problema de uma gigante petroquímica. Com uma dívida de aproximadamente R$ 54 bilhões, a companhia entrou em negociação com seus principais credores para tentar reorganizar o passivo e preservar a operação. Entre os credores estão bondholders, Banco do Brasil, BNDES, Itaú, Bradesco e Santander. A empresa terá 90 dias de proteção judicial para apresentar e estruturar sua proposta de reestruturação.
O caso é emblemático porque mostra que recuperação de empresa não é sinônimo de empresa sem atividade ou sem capacidade operacional. A Braskem registrou lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, mas continua pressionada por uma dívida gigantesca, dificuldades de liquidez, problemas no mercado petroquímico e passivos relacionados ao caso de afundamento do solo em Maceió. A alavancagem, segundo informações divulgadas nesta segunda-feira, chegou a 14,7 vezes o Ebitda.
E aqui está o ponto central: uma empresa pode ser operacionalmente forte e, ainda assim, financeiramente sufocada. Basta que o custo da dívida cresça mais rapidamente que a capacidade de geração de caixa. É justamente o que ajuda a explicar a onda de recuperações que atravessa a economia brasileira. Juros elevados encarecem empréstimos e rolagens, o crédito fica mais seletivo, fornecedores passam a exigir garantias e o caixa das empresas fica cada vez mais apertado. A própria Serasa aponta que, em 2025, a recuperação judicial continuou sendo utilizada como instrumento de ajuste de balanço em um ambiente de crédito mais seletivo e custo financeiro elevado.
Os números mostram que o fenômeno não é pontual. Em 2022, foram registrados 833 pedidos de recuperação judicial, segundo a Serasa Experian, uma queda de 6,5% em relação a 2021. Naquele ano, Serviços liderava os pedidos e as micro e pequenas empresas respondiam por 528 requisições.
O cenário mudou radicalmente. Em 2024, foram 2.273 pedidos, alta de 61,8% em relação a 2023, o maior número da série histórica até então. Em 2025, pela metodologia atualizada da Serasa, foram registrados 977 processos de recuperação judicial, envolvendo 2.466 CNPJs, número recorde de empresas envolvidas, com alta de 13% sobre 2024. É importante não comparar diretamente os 833 de 2022 com os 2.466 CNPJs de 2025, porque a metodologia da Serasa foi aperfeiçoada e passou a diferenciar processos de empresas envolvidas.
E 2026 continua em patamar elevado. Pelos dados mais recentes da Serasa disponíveis, até abril haviam sido contabilizados 268 processos de recuperação judicial, envolvendo 602 CNPJs. Em janeiro foram 53 processos e 126 empresas; em fevereiro, 55 processos; e, em março, 76 processos envolvendo 176 CNPJs. O ritmo mostra que a pressão não desapareceu com a passagem do ano.
Há, porém, outro número que ajuda a dimensionar melhor o tamanho do problema. O monitor RGF-Bizdoc aponta que junho de 2026 terminou com 6.341 empresas em recuperação judicial no Brasil, depois de o estoque ter atingido 6.513 em maio. O número representa alta de 6,2% em relação ao fim de 2025. Isso é estoque, não quantidade de novos pedidos: são empresas que continuam carregando processos de recuperação.
E qual setor está sendo mais castigado? O agronegócio aparece hoje como um dos principais focos da crise. A Serasa contabilizou 1.990 pedidos de recuperação judicial no agronegócio em 2025, alta de 56,4% sobre 2024 e recorde da série iniciada em 2021. No primeiro trimestre de 2026, foram outros 474 pedidos, alta de 21,9% sobre o mesmo período de 2025.
A explicação combina vários fatores: crédito mais caro e restrito, endividamento elevado, custos de produção, queda ou volatilidade dos preços das commodities e problemas climáticos. No primeiro trimestre de 2026, produtores de soja responderam por 137 pedidos e a criação de bovinos por 42. Mato Grosso liderou entre os Estados, seguido por Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul.
Mas não é apenas o campo que está sofrendo. Transporte, logística, varejo e serviços também aparecem entre os setores mais pressionados. O varejo, em especial, enfrenta uma combinação particularmente cruel: juros altos, consumidor endividado, competição dos marketplaces, mudança no hábito de consumo e dificuldade de financiar estoques. Entre junho de 2025 e junho de 2026, o número de varejistas em recuperação judicial cresceu 20,4%, segundo levantamento citado pelo UOL.
Essa é a pergunta mais importante. E a resposta não é confortável: nem sempre.
A recuperação judicial não produz dinheiro novo por mágica. Ela reorganiza dívidas, dá tempo para negociação com credores e tenta preservar uma empresa que ainda tenha condições econômicas de sobreviver. Funciona quando existe um negócio viável sufocado por uma estrutura financeira que pode ser readequada.
Quando o problema é estrutural, porém, a história é diferente. Se a companhia perdeu competitividade, não consegue vender, possui um modelo de negócio ultrapassado ou continua gerando prejuízo operacional, simplesmente alongar a dívida não resolve. A empresa pode sair da recuperação e voltar a apresentar problemas poucos anos depois.
Um estudo da FGV sobre empresas que passaram pelo processo ajuda a dimensionar a dificuldade. A pesquisa cita levantamento da Serasa segundo o qual apenas 6% das empresas que recorreram à recuperação judicial conseguiram se recuperar em menos de cinco anos. Na amostra analisada pela FGV, 11% conseguiram obter encerramento da recuperação em menos de cinco anos e outros 6% chegaram à recuperação em até oito anos.
Isso não significa que 94% necessariamente quebrem. Significa que sair formalmente da recuperação em pouco tempo é difícil. Muitas empresas permanecem durante anos submetidas a planos, restrições e negociações com credores.
A Braskem, portanto, é um caso que merece atenção especial. Ela não é uma pequena empresa sem acesso a crédito ou mercado. É uma gigante industrial, com capacidade operacional, mas pressionada por dívida, mercado internacional, liquidez e passivos. A companhia tenta justamente negociar antes que uma crise financeira se transforme em falência.
E existe uma diferença importante: Braskem pediu recuperação extrajudicial, não recuperação judicial. Na extrajudicial, a empresa negocia diretamente com determinados credores e leva o acordo ao Judiciário para homologação. É um caminho diferente daquele em que a empresa entra em recuperação judicial e negocia dentro de um processo mais amplo e estruturado.
No fundo, a avalanche de recuperações revela uma questão que vai muito além das empresas individualmente consideradas. Uma economia pode crescer e, ao mesmo tempo, produzir empresas financeiramente fragilizadas quando o custo do dinheiro permanece elevado e o crédito se torna seletivo.
A conta chega primeiro para quem precisa tomar dinheiro emprestado. Depois chega para quem vende a prazo. Em seguida, para quem compra a prazo. E, finalmente, chega ao caixa das empresas.
É por isso que a Braskem deve ser observada com atenção. Uma companhia de R$ 54 bilhões em dívida recorrendo à renegociação com credores mostra que o problema não é simplesmente “empresa mal administrada”. Há casos de gestão ruim, erros estratégicos e modelos de negócios ultrapassados. Mas há também um ambiente macroeconômico que está apertando o caixa de empresas de todos os tamanhos.
A recuperação judicial não é a doença. É o sintoma.
A doença aparece antes: dívida elevada, juros caros, crédito escasso, consumo enfraquecido, custos crescentes e, em alguns setores, crises específicas de produção e mercado.
E quando até uma gigante como a Braskem precisa bater à porta dos credores para pedir fôlego, fica uma pergunta que não pode ser ignorada: quantas empresas brasileiras ainda estão funcionando normalmente, mas já estão financeiramente doentes e apenas esperando o próximo vencimento para descobrir?
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