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Economia CRISE ECONÔMICA

Quebradeira empresarial: Brasil termina primeiro semestre com 6,3 mil empresas em recuperação judicial

Alta de juros, crédito caro, endividamento e perda de margem ajudam a explicar o avanço da crise; comércio lidera o estoque de empresas em recuperação e micro e pequenas companhias são as que mais crescem nesse cenário

26/08/2026 às 07h47
Por: Douglas Ferreira
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O setor produtivo enfrenta uma das mais crises dos últimos anos - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA
O setor produtivo enfrenta uma das mais crises dos últimos anos - Foto: Reprodução/Imagem gerada por IA

Empresa em crise existe desde que surgiu a primeira empresa. Negócios enfrentam ciclos, erros de gestão, mudanças de mercado, concorrência e períodos de maior ou menor demanda. Mas os números dos últimos anos mostram algo que não pode ser tratado como simples oscilação normal da economia. O Brasil vive uma escalada expressiva dos processos de recuperação judicial, e o problema já alcança empresas de todos os tamanhos.

É preciso, entretanto, fazer uma correção importante: não é tecnicamente correto afirmar que “nunca na história desse país” houve tanta quebradeira apenas com base nos números de recuperação judicial. O que os dados permitem afirmar é que o estoque de empresas em recuperação judicial atingiu um patamar recorde recente, com 6.341 companhias nessa situação ao final de junho de 2026, segundo o Monitor RGF-BizDoc, alta de 6,2% em relação ao fim de 2025. Em maio, o estoque chegou a 6.513 empresas, antes de recuar em junho.

Uma escalada que começou a ganhar força em 2023

A série histórica da Serasa Experian mostra como a pressão aumentou. Em 2022, foram registrados 833 pedidos de recuperação judicial no Brasil. O número, naquele momento, representava uma queda de 6,5% em relação a 2021. Serviços lideravam as solicitações, seguidos por Comércio e Indústria.

Um ano depois, o cenário mudou radicalmente. 2023 terminou com 1.405 pedidos, alta de 68,7% sobre 2022. Foi o maior número desde 2020, com micro e pequenas empresas liderando a procura, embora também tenham aparecido 135 empresas de grande porte entre as requerentes.

Em 2024, a escalada continuou. A Serasa registrou 2.273 pedidos, alta de 61,8% sobre 2023 e o maior número da série histórica da instituição até aquele momento. Somente no primeiro semestre foram 1.014 solicitações, 71% acima do mesmo período de 2023.

2025: menos processos, mas mais empresas envolvidas

Aqui aparece uma diferença metodológica que precisa ser explicada para evitar uma comparação enganosa. A Serasa Experian atualizou sua metodologia em 2025 e passou a separar número de processos de número de CNPJs envolvidos. Um processo pode reunir várias empresas de um mesmo grupo econômico.

Por essa nova metodologia, 2025 terminou com 977 processos de recuperação judicial, alta de 5,5% sobre 2024. Ao mesmo tempo, 2.466 CNPJs estiveram envolvidos em processos de recuperação judicial, crescimento de 13% e recorde da série sob a nova metodologia.

Isso significa que não se deve colocar 833, 1.405, 2.273 e 977 lado a lado como se fossem exatamente a mesma unidade de medida. Os três primeiros números pertencem à série anterior de processos e o dado de 2025 incorpora uma metodologia mais detalhada. Para avaliar o alcance da crise, o número de CNPJs envolvidos passou a ser uma medida particularmente importante.

E 2026?

Os dados oficiais mais recentes da Serasa não permitem afirmar quantos pedidos foram feitos nos oito primeiros meses de 2026, porque o próprio indicador trabalha com defasagem média de cerca de três meses. O dado disponível até abril registrava 268 processos e 602 CNPJs envolvidos em pedidos de recuperação judicial. A Serasa alerta que esses números podem sofrer revisões retroativas.

Já o levantamento RGF-BizDoc oferece uma fotografia diferente e mais atual: 6.341 empresas permaneciam em recuperação judicial ao final do primeiro semestre de 2026. É fundamental não confundir esse número com novos pedidos. Trata-se do estoque de empresas que estavam em processos ativos de recuperação, enquanto os dados da Serasa medem pedidos registrados no período.

E o perfil está mudando. Desde 2023, o número de microempresas em recuperação judicial praticamente triplicou, passando de 513 para 1.575 CNPJs, segundo o RGF-BizDoc. Entre pequenas empresas, o crescimento chegou a 69%. Nas médias, 36%. Entre grandes e muito grandes, a incidência relativa caiu, em parte porque companhias maiores têm recorrido também à recuperação extrajudicial.

Qual setor está mais ameaçado?

No estoque de empresas em recuperação ao final do segundo trimestre de 2026, o Comércio liderava, com 1.649 companhias, seguido pela Indústria, com 1.455, e pelo Agronegócio, com 1.263. O setor que mais chamou atenção, porém, foi o agro: apesar de não liderar o estoque, registrou o maior número de novos casos no segundo trimestre, com 111 empresas entrando em recuperação.

A Serasa também mostra que o agronegócio entrou em uma zona de forte pressão. Em 2025, a cadeia do agro registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial, alta de 56,4% sobre 2024. No primeiro trimestre de 2026, foram outros 474 pedidos, crescimento de 21,9% sobre o mesmo período de 2025. A categoria inclui produtores pessoas físicas, pessoas jurídicas e empresas relacionadas à cadeia.

A explicação não está em uma causa isolada. Juros elevados, crédito mais caro e seletivo, endividamento acumulado, redução das margens, aumento de custos, desaceleração da demanda e dificuldades para gerar caixa formam uma combinação particularmente perigosa. No agronegócio entram ainda clima, preços das commodities, insumos dolarizados e exposição cambial.

O que isso representa para os empregos?

Representa uma ameaça concreta, mas não existe um número oficial que permita dizer que 6.341 empresas equivalem a determinado número de empregos em risco. Seria irresponsável transformar o estoque de recuperações em uma estimativa direta de postos de trabalho ameaçados.

O que existe é uma relação econômica bastante clara. A recuperação judicial foi criada justamente para tentar preservar a atividade empresarial e os empregos. O artigo 47 da Lei nº 11.101/2005 estabelece como objetivo superar a crise econômico-financeira, manter a fonte produtora e preservar o emprego dos trabalhadores, além de atender aos interesses dos credores.

Na prática, portanto, a recuperação judicial pode ser uma proteção ao emprego ou apenas a primeira etapa de uma crise mais profunda, dependendo da capacidade da empresa de recuperar geração de caixa e cumprir o plano apresentado aos credores. O caso da Casas Bahia mostra como esse impacto pode ser imediato: o grupo entrou em recuperação judicial com dívida de R$ 17,3 bilhões e uma reestruturação que envolveu fechamento de lojas e milhares de postos de trabalho.

Também existem casos em que a recuperação não consegue salvar a companhia. A Oi, por exemplo, teve a falência confirmada pela Justiça em agosto de 2026 depois de anos de tentativas de reestruturação. A empresa havia iniciado uma primeira recuperação em 2016, voltou a pedir proteção em 2023 e acumulava novamente uma dívida bilionária.

Por outro lado, recuperação judicial não significa necessariamente fracasso. O objetivo legal é justamente impedir que uma crise financeira transforme imediatamente uma empresa viável em uma empresa falida. O próprio CNJ destaca casos de companhias que conseguiram reestruturar suas dívidas, preservar operações e retomar o crescimento depois de recorrerem ao instrumento.

O sinal amarelo virou vermelho?

Talvez essa seja a pergunta mais importante.

O Brasil não está diante de uma quebradeira uniforme. A economia continua criando empresas e empregos: em 2025, havia 59,97 milhões de vínculos formais ativos, crescimento de 5% em relação a 2024, segundo a Rais.

Mas isso não elimina o problema. Ao mesmo tempo em que a base empresarial cresce, aumenta também o número de companhias que precisam recorrer à Justiça para tentar reorganizar dívidas. E a inadimplência empresarial permanece em nível elevado, criando um ambiente em que empresas saudáveis podem adiar investimentos enquanto as mais endividadas lutam para sobreviver.

O mais preocupante, portanto, não é simplesmente haver empresas em recuperação judicial. É o estoque permanecer elevado por anos e o processo alcançar cada vez mais empresas menores, que normalmente possuem menos acesso a crédito, menor capacidade de absorver choques e menos margem para atravessar períodos prolongados de juros altos.

A recuperação judicial é uma espécie de UTI empresarial. A empresa ainda está viva, mas precisa reorganizar suas contas para continuar respirando.

E os números deixam uma pergunta incômoda: se 6.341 empresas já estavam sob recuperação judicial ao final do primeiro semestre de 2026, quantas outras estão hoje funcionando normalmente, mas financeiramente sufocadas, esperando apenas a próxima conta vencer para bater à porta da Justiça?

O dado mais honesto é esse: não estamos diante de uma simples onda passageira de empresas em dificuldade. Estamos diante de um ciclo prolongado de estresse financeiro empresarial, que começou a se intensificar em 2023, atingiu níveis extremos em 2024 e continua produzindo um estoque elevado em 2026.

E quando a crise chega à pequena empresa, à indústria, ao comércio, ao campo e às grandes corporações, ela deixa de ser apenas uma questão de balanço.

Passa a ser uma questão de emprego, renda, crédito e atividade econômica.

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