
O Brasil parece estar perdendo o braço de ferro com os Estados Unidos. E isso não aconteceu por acaso. A condução política do governo Lula, marcada por declarações duras contra Donald Trump e por sucessivas alfinetadas ao presidente americano, ajudou a transformar uma disputa comercial em uma crise diplomática de maiores proporções. Agora, diante do impacto econômico do tarifaço, o próprio governo brasileiro corre para restabelecer um canal de negociação com Washington. A primeira consequência dessa mudança de postura é uma reunião virtual marcada para a próxima segunda-feira, 31 de agosto, entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
A situação é particularmente desconfortável porque, durante semanas, Brasília sustentou uma postura de enfrentamento enquanto as negociações não avançavam. Agora, o discurso mudou. Depois de um telefonema de uma hora e 20 minutos entre Lula e Trump, em 21 de agosto, os dois governos decidiram reabrir as conversas. Segundo o Planalto, Trump concordou com a necessidade de preservar relações comerciais fortes e propôs que as equipes dos dois países retomassem as reuniões rapidamente.
A diferença é que Washington chega à mesa de negociação depois de já ter imposto as tarifas. As medidas adicionais anunciadas pelos Estados Unidos somam 37,5% sobre determinadas exportações brasileiras, resultado de uma sobretaxa de 25% e outra de 12,5% associada, entre outros argumentos, a preocupações com trabalho forçado. O governo Trump também manteve uma lista extensa de produtos fora das sobretaxas, reduzindo parte do impacto sobre cadeias consideradas estratégicas.
É aqui que aparece a fragilidade brasileira na queda de braço. Negociação comercial não se vence no grito. Exige estratégia, previsibilidade, capacidade de fazer concessões e, sobretudo, disposição para entender os interesses do outro lado. O Brasil pode discordar das justificativas americanas para as tarifas, como de fato discorda, mas precisa reconhecer que Washington colocou suas cartas na mesa e agora é o governo brasileiro que tenta recuperar espaço.
Não basta, portanto, uma negociação protocolar para aumentar a lista de isenções. O objetivo inicial brasileiro é justamente ampliar a relação de produtos livres das sobretaxas, com a intenção posterior de tentar reverter as medidas. O desafio é transformar essa abertura em um acordo que proteja exportadores brasileiros sem produzir uma nova rodada de retaliações.
E há um ponto que o governo Lula precisa compreender: não basta negociar tarifas; é preciso trabalhar para remover as razões econômicas e políticas que alimentam a desconfiança de Washington. Isso inclui discutir seriamente questões como combate ao trabalho forçado e a cadeias produtivas associadas a condições análogas à escravidão, rastreabilidade ambiental, regras comerciais, segurança jurídica e acesso a mercados.
Não significa aceitar passivamente todas as exigências americanas. Significa entender que o Brasil está inserido no continente americano, participa de cadeias econômicas profundamente ligadas aos Estados Unidos e precisa agir de acordo com seus próprios interesses nacionais. Em um momento de reorganização geopolítica, o mundo ocidental precisa de mais coordenação e menos improvisação diplomática.
E o Brasil, nesse aspecto, vinha caminhando na contramão. O governo Lula não perdeu oportunidades de confrontar Trump publicamente, inclusive em temas que extrapolavam a relação comercial. O problema é que a retórica pode render aplausos políticos domésticos, mas não paga a conta de uma tarifa de 37,5% nem protege o exportador brasileiro que depende do mercado americano.
A retomada do diálogo é, portanto, positiva. Melhor sentar à mesa do que permanecer em uma guerra comercial que pode prejudicar os dois países. Lula também está correto ao defender que Brasil e Estados Unidos mantenham vínculos comerciais fortes, argumento que apresentou diretamente a Trump.
Mas o governo precisa abandonar a ideia de que uma boa negociação começa necessariamente com uma vitória política. Às vezes, uma negociação bem-sucedida começa com uma mudança de postura, reconhecimento de erros e disposição para construir uma saída possível para os dois lados.
Há ainda um componente eleitoral que não pode ser ignorado. A retomada das conversas ocorre às vésperas da eleição brasileira, e qualquer eventual recuo de Washington poderá ser explorado por Lula como resultado de sua diplomacia. Mas, segundo avaliação divulgada nesta terça-feira, 25 de agosto, o próprio Planalto não trabalha com expectativa de retirada imediata das tarifas antes das eleições.
A reunião do dia 31 será, portanto, mais do que uma conversa técnica. Será o primeiro teste concreto da capacidade do governo Lula de reconstruir uma relação que sofreu desgaste político e comercial. Márcio Elias Rosa e Jamieson Greer terão de discutir tarifas, isenções, barreiras comerciais e os pontos de divergência que levaram à atual crise.
No fim das contas, o Brasil ainda pode encontrar uma saída honrosa. Mas ela não virá de provocações, discursos inflamados ou bravatas. Virá de negociação profissional, pragmatismo e capacidade de reconhecer que, em relações internacionais, interesse nacional vale mais do que vaidade política.
O Brasil não precisa se curvar aos Estados Unidos.
Mas também não precisa transformar Washington em inimigo.
Precisa apenas aprender a defender seus interesses com inteligência.
E talvez essa seja a principal lição que o tarifaço esteja deixando para o governo Lula: na política internacional, quem fecha todas as portas pode acabar descobrindo tarde demais que precisa bater justamente naquela que passou meses tentando fechar.
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