
O presidente Lula costuma falar do Bolsa Família como uma das grandes marcas de seus governos. Mas a história precisa ser contada inteira. O programa foi, sim, criado em 2003, mas nasceu da unificação de políticas que já existiam, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio-Gás e outros mecanismos de transferência de renda. Isso está registrado na própria legislação que criou o programa.
E há outro dado que merece atenção. O salto mais expressivo no valor médio ocorreu justamente no período do Auxílio Brasil, criado no governo Jair Bolsonaro. A média, que estava em R$ 191,80 em 2019, chegou a R$ 607,10 em 2022. Em 2023, já sob Lula, o Bolsa Família foi recriado com piso de R$ 600, além dos adicionais por composição familiar.
Agora vem a notícia que pode provocar desconforto no governo. A proposta orçamentária apresentada para 2027 reserva R$ 157,1 bilhões para o Bolsa Família, abaixo dos R$ 158,6 bilhões previstos para 2026. O valor médio pago em agosto de 2026 está em R$ 678,35, enquanto o piso permanece em R$ 600. Ou seja, a proposta não prevê reajuste do benefício para o próximo ano.
Isso não significa que o programa esteja sendo abandonado. Significa que, diante das restrições fiscais, o governo está escolhendo não elevar o valor nominal do benefício em 2027. E aqui está a contradição política: um governo que transformou o Bolsa Família em símbolo de sua identidade social chega ao período eleitoral sem colocar um reajuste no orçamento.
É preciso separar propaganda de história. O Bolsa Família é uma política pública importante e teve impacto relevante na transferência de renda, mas não nasceu do zero em 2003. Lula consolidou, unificou e ampliou programas anteriores. A própria legislação é clara ao listar os benefícios que foram incorporados.
Agora, a pergunta que fica é outra: se o programa é tão importante, por que o benefício não acompanha sequer a necessidade de atualização de seu poder de compra? O governo terá de explicar ao eleitor, especialmente às famílias de baixa renda, por que há espaço para tantas outras despesas, mas não para elevar o valor de uma das principais vitrines sociais do governo.
No fim das contas, o Bolsa Família continua sendo uma poderosa ferramenta social. Mas também é uma poderosa ferramenta política. E em 2027, com uma eleição presidencial no horizonte, R$ 600 continuarão valendo R$ 600 enquanto o custo de vida segue seu próprio caminho. A conta, cedo ou tarde, chega ao bolso do brasileiro.
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