
Sabe aquela história de que o PT do Piauí era território absoluto de Wellington Dias? Pois é. Talvez tenha deixado de ser. Ou pelo menos tenha ficado claro que o Índio já não manda sozinho como muitos imaginavam.
A justificativa apresentada pelo médico Vinícius Dias para a desistência da irmã, Iasmin Dias, da primeira suplência de senador na chapa de Júlio César de Carvalho Lima foi a existência de resistência dentro do próprio PT. E convenhamos: isso parece bastante óbvio.
O que aconteceu foi, na prática, um raro momento de lucidez política dentro da legenda. O partido percebeu a tempo o movimento que vinha sendo construído há anos. Afinal, o PT piauiense nasceu combatendo justamente aquilo que agora parte de suas lideranças enxerga como uma ameaça: a formação de uma nova oligarquia política.
E ninguém simboliza mais essa contradição do que Wellington Dias.
Foi combatendo velhas estruturas familiares e grupos tradicionais que o PT cresceu no Piauí. Mas, desde que chegou ao poder, muita gente avalia que o senador e ministro passou a trabalhar para construir uma estrutura política própria, familiar e duradoura.
Primeiro surgiu o nome do médico Vinícius Dias como possível candidato a vice-governador na chapa governista. A resistência foi imediata. O projeto não prosperou.
Restou então uma alternativa politicamente mais confortável: emplacar Iasmin Dias como primeira suplente de Júlio César. Parecia um caminho sem obstáculos. Parecia.
Mas política é justamente a arte de descobrir que aquilo que parece fácil nem sempre é.
E foi aí que o PT resolveu reagir.
Pela primeira vez em muito tempo, setores importantes da legenda disseram um sonoro "não" ao principal líder histórico do partido no estado.
Não foi um adversário. Não foi a oposição. Não foi a direita. Foi o próprio PT.
A resistência cresceu. As críticas apareceram. Lideranças importantes passaram a questionar a conveniência da indicação. O deputado federal Merlong Solano foi um dos que manifestaram desconforto.
O resultado está aí.
Iasmin retirou seu nome e a vaga acabou ficando com Rosário Bezerra, figura histórica da legenda e que conseguiu reunir apoio praticamente unânime entre as diferentes correntes petistas.
E isso talvez seja o fato político mais importante dessa história.
A desistência de Iasmin não revela apenas uma disputa por espaço numa chapa majoritária. Ela mostra que Wellington Dias continua sendo uma das maiores lideranças do PT, mas já não controla sozinho os rumos do partido.
Ainda influencia. Muito.
Mas não decide sozinho.
Talvez o próprio Índio tenha acreditado que a indicação da filha seria apenas uma formalidade. Talvez tenha medido forças dentro da legenda. Talvez tenha imaginado que sua palavra ainda fosse suficiente para encerrar qualquer debate.
Mas política não é matemática. E, ironicamente, desta vez o matemático Rafael Fonteles parece ter assistido de camarote a uma disputa que acabou expondo fissuras internas no grupo do ministro.
E Iasmin Dias?
Segundo Vinícius, a "maninha" preferiu recuar para evitar divisões e conflitos internos. Uma saída elegante para um problema político que já havia se tornado grande demais.
Agora fica a pergunta.
Foi fogo amigo?
Ou apenas um raro e inesperado lapso de consciência coletiva dentro do PT?
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