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Cultura REFLEXÕES

Das coisas que aprendi enquanto a certeza não vem

Reflexões sobre desejos, poder e a busca por si mesmo em um mundo conectado e consumista

03/10/2024 às 10h07 Atualizada em 03/10/2024 às 10h16
Por: Clarissa Villar
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Imagem: Reprodução
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Não sei se foi coincidência proposital a obra de George Orwell e *Mulher Maravilha 1984* se passarem no mesmo ano. Só sei que amei. No filme estrelado pela sucessora de Linda Carter (que aparece graciosamente no final), um empresário ganancioso tenta roubar uma pedra milenar criada pelos deuses para obter dominação mundial. A frase que ele diz na TV: "Life is good, but it can be better" faz uma clara alusão à indústria da motivação e coaching que tomou rumos desenfreados na atualidade. Concedendo os mais profundos desejos das pessoas e, em troca, aumentando seu poder pessoal, a pedra faz até a heroína exercitar seu desapego. Orwell previu o mundo atual, altamente conectado com as redes sociais e o Estado vigiando tudo. A cena em que ele usa o satélite para falar com o mundo todo é uma alusão à dominação das redes hoje.

O filme, lançado em meio à pandemia, não poderia prever que teria relações com o momento atual. No final, todos renunciam ao seu desejo para salvar o mundo. Em tempos de Covid, nada mais coletivo e empático do que renunciar a algo para um bem maior.

Renunciamos reuniões, jantares, viagens. Renunciamos beijos, abraços, encontros. Jorge Forbes escreveu um livro em que questionava: "Você quer aquilo que deseja?", partindo de uma perspectiva de Lacan. Em um mundo globalizado, somos bombardeados a querer sempre mais e mais. Consumimos, enjoamos, voltamos a consumir. Penso que desejos são infantis, enquanto aquilo que se realmente quer é algo maduro, consciente.

No filme também se pode ver a questão de vilões não-terapeutizados, com mágoas e frustrações não trabalhadas, que depositam em uma pedra a esperança de conquistarem algo sem labuta própria, gerando uma espécie de idolatria pelo poder.

Vejo no dia a dia pessoas assim. Sem trabalharem seus medos e neuroses num divã, estes são depositados em fama, cargos, posições e, pasmem, até bolsas importadas, virando uma máscara. E como essa sempre cai, esses indivíduos se atropelam neles próprios, esbarrando em si mesmos. Só vão para a terapia em último caso, quando os pensamentos e sentimentos estão na UTI. Enquanto a certeza não vem, aprendi que prefiro meu divã a bombardear minhas neuroses. Divã não sai de moda e lhe confere o verdadeiro poder, o do domínio pessoal. 

Pochete não combina comigo. Nem ombreiras. Nem manga morcego. Nem sombra azul. Nem calça clochard. Mas isso, deixemos em 1984.

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Sobre Clarissa Martins Cortez Vilar é psicóloga, escritora, empresária, mestre em Humanidades Médicas pelo Birkbeck College e pós-graduanda em Gestão e Liderança pelo IPOG. Fã de espiritualidade e terapias holísticas, possui formação no Método Louise Hay, ativismo quântico pela Quantum Academy, Reiki nível 1 e ThetaHealing DNA Básico. É membro da AJEB-Piauí e da Associação Mulheres de Negócios. INSTAGRAM: @psiclarissavilar YOUTUBE: @clarissavilaroficial SITE: clarissavilar.com.br
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