
Os ataques dirigidos à jornalista Malu Gaspar não são um episódio isolado. Eles fazem parte de um fenômeno mais amplo, preocupante e recorrente no Brasil contemporâneo: a tentativa sistemática de deslegitimar o jornalismo quando ele cumpre, com rigor, sua função essencial de fiscalizar o poder. O curioso, e grave, é que esses ataques não partem apenas de militâncias políticas organizadas, mas também de setores da própria mídia, que ou silenciam diante da violência simbólica ou aderem à crítica enviesada contra a jornalista.
Quando investigar vira sinônimo de “traição ideológica”, algo está profundamente errado.
Os ataques a Malu Gaspar partem, majoritariamente, de trincheiras ideológicas bem delimitadas. Setores da esquerda militante, especialmente aqueles que confundem jornalismo com ativismo, passaram a tratar qualquer investigação que exponha contradições, abusos ou ilegalidades de governos, partidos ou figuras “do seu campo” como um ato hostil. A lógica é simples e perigosa: se a denúncia atinge “os nossos”, o problema não é o fato, é o jornalista.
Mas o fenômeno não se limita às redes sociais ou a militantes anônimos. Há também jornalistas, colunistas e veículos que, por conveniência, alinhamento político ou medo, preferem atacar o mensageiro em vez de discutir a mensagem. É a inversão completa da lógica democrática.
Talvez muitos dos que atacam Malu Gaspar desconheçam, ou finjam desconhecer, o sentido histórico e político do jornalismo como quarto poder. A expressão remete à compreensão de que a imprensa atua como um contrapeso aos três poderes formais do Estado: Executivo, Legislativo e Judiciário.
O pensador francês Alexis de Tocqueville, ao observar a sociedade norte-americana no século XIX, percebeu que a imprensa exercia uma força decisiva na fiscalização do poder e na formação da opinião pública. Não se tratava de militância, mas de vigilância.
No Brasil, essa ideia foi traduzida de forma ainda mais contundente por Millôr Fernandes, quando sentenciou:
“Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.
Essa frase, hoje atacada ou distorcida por jornalistas militantes, não significa oposição partidária, mas oposição ao abuso, à mentira, à opacidade e à corrupção, venha de onde vier.
O que Malu Gaspar, assim como outros jornalistas e veículos independentes, faz é justamente isso: investigar, apurar, confrontar versões oficiais e expor fatos de interesse público. O mesmo vale para portais independentes como o Gazeta Hora1, que operam fora dos grandes conglomerados e, por isso mesmo, tornam-se alvos preferenciais.
Então, a pergunta inevitável surge: por que fazer jornalismo de verdade virou motivo de ataque?
A quem interessa o silenciamento?
Por que o denunciante incomoda mais do que o denunciado?
O que leva jornalistas a atacarem colegas em vez de ecoarem as denúncias?
Há várias respostas possíveis, e nenhuma delas é confortável.
Alguns se autocensuram por medo: medo de cancelamento, de isolamento profissional, de perder espaço ou contratos. Outros agem por subserviência, alinhando-se a narrativas dominantes para manter privilégios. Há ainda os que operam sob cegueira ideológica, incapazes de admitir que “seu lado” também erra, abusa ou corrompe. E, por fim, há os que simplesmente seguem a manada, repetindo ataques sem reflexão crítica, como se estivessem em um tribunal de linchamento moral.
Quando os ataques se voltam contra uma mulher no exercício pleno de sua função profissional, o problema ganha contornos ainda mais graves. Atacar Malu Gaspar não é apenas uma tentativa de deslegitimar seu trabalho, mas também de deslocar o foco do que realmente importa: os fatos que ela revela.
Criticar o conteúdo é legítimo. Discordar faz parte da democracia. O que não é aceitável é recorrer a ataques pessoais, insinuações ou campanhas de difamação para silenciar uma jornalista porque sua apuração contraria interesses políticos, econômicos ou narrativos.
A defesa das mulheres e da liberdade de imprensa não pode ser seletiva. Ou é princípio, ou não é.
Ao contrário de parte da elite midiática e de jornalistas militantes, uma parcela significativa da sociedade brasileira ainda compreende, e exige, que o jornalismo retome seu papel de quarto poder. Um jornalismo que fiscaliza, denuncia, incomoda e não pede licença.
Os ataques a Malu Gaspar dizem menos sobre ela e mais sobre o desconforto de quem teme a luz lançada sobre zonas de sombra. Quando investigar vira ofensa e denunciar vira provocação, é sinal de que o jornalismo está fazendo exatamente aquilo para o qual foi criado.
E talvez seja justamente por isso que incomoda tanto.
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