
Durante décadas, a grande mídia brasileira jurou fidelidade à independência com a mesma convicção de quem promete dieta na ceia de Natal. Na prática, nunca foi. Ou atua como oposição raivosa, daquelas que confundem crítica com militância, ou como serviçal dócil, que abana o rabo para o poder esperando migalhas publicitárias, verbas oficiais ou o famoso selo invisível dos “Amigos do Rei” via Lei Rouanet.
Essa relação promíscua entre imprensa e Estado não nasceu ontem. Desde a redemocratização, parte expressiva dos grandes veículos trata governos como padrinhos: quando não gosta, bate sem critério; quando gosta, passa pano industrial, daqueles usados para limpar pista de aeroporto. O resultado? Uma imprensa desacreditada, criticada pela sociedade, pelo empresariado, pela política e até pelo meio artístico, curiosamente, menos pelos CNPJs bem alimentados com publicidade oficial.
Mas afinal, qual é o papel de um veículo de comunicação numa democracia? Combatê-lo? Incentivá-lo? Ajudar a governar? Não. Jornalismo não é torcida organizada nem assessoria de imprensa do Planalto. Jornalismo existe para fiscalizar. Simples assim. Como já ensinava Millôr Fernandes, com a elegância de quem dava tapa com luva de pelica: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.
E oposição aqui não significa tratar o governo como inimigo, isso é coisa de militante histérico, aloprado. Significa ser oposição aos esquemas, aos desvios, à corrupção, aos abusos de poder e à perseguição política, venha ela de qualquer um dos Poderes da República. Jornalismo sério não mistura alhos com bugalhos, muito menos microfone com palanque.
É nesse contexto que o episódio envolvendo o SBT, o lançamento do SBT News e a presença ostensiva da família presidencial no evento caiu como gasolina numa fogueira já acesa. A aproximação repentina com o Planalto causou surpresa, apreensão e um legítimo temor: estaria uma emissora historicamente popular flertando com o jornalismo de colo?
O problema não foi a presença de autoridades. O problema foi o simbolismo. Microfone de televisão amplifica discursos. Uma fala no sofá de casa é conversa; dita numa emissora aberta, vira mensagem nacional. E o público percebe. Percebe rápido. Tanto que a reação veio em efeito dominó.
Patrícia Abravanel perdeu mais de meio milhão de seguidores em poucos dias, uma sangria digital que nenhuma assessoria de imagem ignora. Zezé Di Camargo, sem sutileza e com o microfone no máximo, puxou o freio de mão e pediu que seu especial de Natal não fosse exibido. Disse mais: acusou as herdeiras de Silvio Santos de “prostituir” a emissora. Pesado? Sim. Exagerado? Talvez. Sintomático? Sem dúvida.
A coisa pegou dentro e fora do meio artístico, dentro e fora da emissora. E foi então que Daniela Abravanel Beyruti, presidente do SBT, entrou em campo para tentar apagar o incêndio com um copo d’água institucional. Em nota elegante, falou em diálogo, pluralidade, isenção, jornalismo sem partido, sem viés, sem algoritmo, sem raiva, quase um jornalismo zen, desses que levitam acima da realidade brasileira.
O discurso é bonito. Impecável no papel. Mas jornalismo não se mede por manifesto, e sim por prática. Independência não se proclama, se exerce. E o público, calejado como está, já não compra promessa embalada em palavras suaves. Quer ver postura. Quer ver distanciamento. Quer ver desconforto no poder, qualquer poder.
Numa democracia saudável, os veículos de comunicação são o último bastião da resistência social. Quando eles se confundem com o Estado, sobra apenas propaganda. Quando se ajoelham, o cidadão fica de pé, e sozinho.
Não se trata de combater o governo. Não. Nem de hostilizá-lo gratuitamente. Trata-se de não governar junto. Cada um no seu quadrado. O governo governa. O jornalismo vigia. Se ambos se dão muito bem, desconfie. Normalmente, alguém deixou de trabalhar.
Porque, no fim das contas, jornalismo que não incomoda o poder não informa: decora o ambiente. E o Brasil, definitivamente, não precisa de mais cortina bonita escondendo rachadura estrutural.



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