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Editorial FAVAS CONTADAS

A oposição que não se opõe a nada

No Piauí, a oposição tornou-se figurante do mesmo roteiro que deveria denunciar.

02/11/2025 às 06h25 Atualizada em 04/11/2025 às 10h10
Por: Redação GH1 Fonte: Arthur Feitosa
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A oposição que não se opõe a nada

A democracia não se sustenta apenas pelo poder, mas pela coragem de quem o enfrenta. No Piauí, a oposição tornou-se figurante do mesmo roteiro que deveria denunciar. Enquanto o governo estadual se perpetua há mais de duas décadas, a oposição — frágil, conveniente e silenciosa — abdica do papel essencial de defender o interesse público. O resultado é um Estado sem freio, sem espelho e sem rumo.

No Piauí, desde janeiro de 2003, o poder tem sido um rio de curso único, desaguando sempre no mesmo estuário político. Mudam-se os nomes, alternam-se os cargos, mas a água é a mesma — estagnada, morna, previsível. O Palácio de Karnak tornou-se símbolo de um regime de continuidade absoluta, onde cada governo administra o Estado como se houvesse recebido, por testamento eleitoral, a posse vitalícia da máquina pública. Mas a culpa não é só de quem governa.

A degradação política piauiense também tem o rosto — ou a ausência dele — daquilo que se convencionou chamar de oposição. Sem oposição, não há democracia funcional. Ela é a blusa que veste o corpo da República, o tecido que protege o regime das intempéries do autoritarismo e da acomodação. É o contraponto legítimo do interesse público — a voz que recorda ao poder que ele não é dono da vontade coletiva. Quando a oposição se cala, o poder se embriaga.

Quando ela se vende, o interesse público se dissolve. E quando ela se ajoelha, o povo perde sua última linha de defesa. No Piauí, essa tragédia se consuma em silêncio. Cada deputado, cada liderança, sonha com sua própria ilha de poder — uma secretaria, uma autarquia, um contrato. A lógica é simples: quem se opõe de verdade não participa do banquete do tesouro estadual. O resultado é uma oposição que virou mezanino do governo — um adorno político, útil apenas para encenar divergências em épocas eleitorais.

A cada eleição, o mesmo teatro: discursos inflamados, promessas de independência, apelos à renovação. Passada a votação, tudo volta ao normal — o governo governa, e a oposição se acomoda. Os antigos sabiam que ser oposição é missão, não conveniência. Homens como Chico Figueiredo de Mesquita, Carlos Augusto de Araújo Lima, Deoclécio Dantas e Ribeiro Magalhães entendiam que discordar é um ato de lealdade ao Estado.

O exemplo de Freitas Neto, prefeito de Teresina entre 1983 e 1985, ilustra isso: governou com apenas cinco aliados e catorze vereadores de oposição, e mesmo assim foi reconhecido como um grande gestor. O contraditório o fortaleceu. O equilíbrio entre poder e resistência é a essência da democracia. Quando o governo reina sozinho, o Estado apodrece por dentro. Hoje, o Piauí vive sob o império da unanimidade comprada — um sistema político sem freio, sem espelho e sem vergonha.

A oposição, reduzida a murmúrios, tornou-se cúmplice da mediocridade que finge combater. Deve-se concluir que nenhum Estado se ergue sobre o silêncio. Nenhuma democracia sobrevive sem contraste. A oposição é a costura da liberdade — o fio que impede o poder de rasgar o tecido da República. O Piauí precisa de uma oposição que não se envergonhe de ser oposição. Que recuse a esmola do poder e aceite o sacrifício da coerência. Que tenha coragem de dizer “não” quando todos dizem “sim”. Somente quando o contraditório se levantar de novo, o Estado poderá reencontrar o rumo do interesse público, da responsabilidade e da decência.

Enquanto isso não acontece, continuaremos reféns do mesmo poder — um poder sem freio, sem espelho e, sobretudo, sem adversário.

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