
O silêncio é ensurdecedor. A frase virou clichê, mas traduz com perfeição o comportamento da mídia, da OAB, da ABI e de outras instituições brasileiras, que se calam diante dos abusos e arbitrariedades do Supremo Tribunal Federal (STF). Aqueles que deveriam fiscalizar, denunciar e cobrar — preferem o conforto da omissão. E, nesse silêncio cúmplice, a democracia brasileira vai sendo corroída em silêncio, sem alarde, como uma doença que mata devagar.
A imprensa, antes tida como o “quarto poder”, hoje é parte do sistema. Foi cooptada, domesticada e transformada em uma voz uníssona de apoio às decisões do STF, mesmo quando elas afrontam a Constituição. Denúncias graves, como as feitas pelo ex-assessor de Alexandre de Moraes, o senhor Tagliaferro, foram varridas para debaixo do tapete. Nenhum editorial, nenhuma reportagem investigativa, nenhum questionamento incisivo. Como se o assunto não existisse.
Num país sério, denúncias assim seriam manchete, capa de jornal, pauta de todos os programas. Mas aqui, a mídia militante prefere olhar para o outro lado. E esse olhar seletivo fala mais do que qualquer manchete: denuncia que o Brasil já não é mais uma democracia plena, mas uma nação refém de um poder que não pode ser questionado — o Supremo Tribunal Federal.
Quando um ministro da Corte, como Luís Roberto Barroso, admite ter pedido “ajuda à CIA” para conduzir o processo eleitoral brasileiro, a imprensa de um país democrático questionaria, investigaria, cobraria explicações. Aqui, a mídia apenas aplaudiu. Nenhum questionamento, nenhuma inquietação. Apenas o silêncio — o mesmo silêncio que se tornou cúmplice.
O grande Millôr Fernandes já dizia: “A imprensa é, por sua essência, oposicionista. O resto são secos e molhados.” O papel do jornalismo não é servir de correia de transmissão do poder, mas de contrapeso, de voz incômoda da verdade. No entanto, hoje, o jornalismo brasileiro parece ter se transformado em assessoria de imprensa do poder — seja ele político, judiciário ou ideológico.
No Piauí, o retrato não é diferente. O “cala boca” institucionalizado reina nas redações. Jornalistas são demitidos, silenciados, perseguidos por cumprirem o dever de informar. Silas Freire e Pedro Alcântara são exemplos claros de profissionais punidos por ousarem questionar. Enquanto isso, comunicadores “afinados” com o governo são premiados com verbas públicas generosas.
A Secretaria de Comunicação adoça as bocas dos que servem e pune os que questionam. E assim se constrói um jornalismo de conveniência, que prefere elogiar do que denunciar, esconder do que expor, agradar do que informar. Um jornalismo que, ao perder sua independência, perde também sua alma.
A censura, agora disfarçada de “regulação” e “moderação de conteúdo”, se impõe de forma sutil, mas devastadora. Decisões judiciais determinam o que pode ou não ser dito, quem pode ou não se manifestar. E o mais assustador: a sociedade se acostumou com isso. A normalização da censura é o primeiro passo para o autoritarismo.
Enquanto isso, a OAB, que deveria ser guardiã da Constituição, se cala. Juristas que conhecem a lei preferem o silêncio, o medo ou o cálculo político. Afinal, muitos almejam cargos, indicações, prestígio — e sabem que quem critica o STF está fora da lista do “quinto constitucional”. Assim, a covardia veste terno e gravata e se esconde atrás do formalismo jurídico.
O Brasil vive um momento sombrio, onde a verdade é punida, o silêncio é recompensado e a imprensa se ajoelha diante do poder. Quando jornalistas, advogados e juízes se calam diante da injustiça, não são apenas vozes que se apagam — é a própria democracia que perde o som.
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