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Política SOB 'FOGO AMIGO'

Ciro Nogueira: pragmatismo ou contradição?

Decisão do senador piauiense, aliado histórico de Bolsonaro, gera revolta entre bolsonaristas e rende ataques de Silas Malafaia, que o chamou de “traidor”

06/08/2025 às 20h33
Por: Douglas Ferreira
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Ciro: “Não assinei e não vou assinar”, sobre o impeachment de Moraes - Foto: Reprodução
Ciro: “Não assinei e não vou assinar”, sobre o impeachment de Moraes - Foto: Reprodução

O Brasil foi surpreendido pela postura do senador piauiense Ciro Nogueira (PP) ao declarar que não assinará o pedido de impeachment do ministro do STF, Alexandre de Moraes. A negativa causa estranheza: Ciro sempre se apresentou como aliado de Jair Bolsonaro, foi o primeiro a visitá-lo após a prisão domiciliar e não economizou críticas aos “arroubos autoritários” de Moraes. De repente, quando chega a hora de transformar discurso em gesto, recua.

“Não assinei e não vou assinar”, disse. A justificativa? Para o ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, a ofensiva é “uma pauta impossível”, já que o Senado não teria os 54 votos necessários para aprovar a medida. “Não perco tempo com pautas que não vão ter sucesso”, reforçou em entrevista.

O argumento não convenceu nem a base bolsonarista, nem a militância que esperava dele uma atitude simbólica, ainda que sem chance de vitória. Afinal, o próprio Ciro reconhece que, mesmo com 80 assinaturas, o processo não avançaria sem o aval do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O que muitos se perguntam é: se já não há chances, por que não assinar apenas para marcar posição?

Fogo amigo

A reação foi imediata. O pastor Silas Malafaia, voz influente no bolsonarismo, não poupou ataques: chamou Ciro deraposa, camaleão e traidor. Acusou o senador de praticar um “joguinho político psicológico” e exigiu que ele “se recolha à mediocridade política”. As palavras duras revelam o tamanho da decepção entre aliados.

De fato, a assinatura de Ciro teria um peso simbólico. Não só somaria ao número de apoiadores, como poderia estimular outros senadores hesitantes a aderirem. Sua recusa, pelo contrário, soa como desestímulo dentro de um movimento que já enfrenta barreiras históricas.

Um impeachment impossível?

A verdade é que, desde que passou a constar na legislação (1950), nenhum ministro do STF foi afastado por impeachment. O único caso remoto de afastamento ocorreu em 1894, ainda no Império, quando Cândido Barata Ribeiro perdeu o cargo porque não tinha “notório saber” jurídico. Desde então, as tentativas não prosperaram.

Ou seja, Ciro tem razão quando diz que a pauta é quase inviável. Mas isso não diminui a contradição entre sua imagem pública — de opositor firme de Moraes — e a decisão de não assinar um documento que, embora simbólico, teria repercussão política e midiática.

Entre a prudência e a omissão

O gesto de Ciro abre um dilema:

  • Para uns, ele demonstra pragmatismo político, evitando desgastes em uma batalha sem futuro.

  • Para outros, transmite fraqueza e oportunismo, justamente quando seus aliados esperavam coragem.

Enquanto isso, o senador se vê no olho do furacão, com críticas vindas não da oposição, mas de dentro do próprio campo bolsonarista. A pecha de “traidor”, lançada por Malafaia, pode acompanhá-lo por muito tempo — e custar caro politicamente.

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