
O fato de o Ceará, uma das economias mais fortes do Nordeste, não possuir rodovias concedidas à iniciativa privada, enquanto estados mais pobres, como o Piauí, já convivem com concessões e cobrança de pedágio, desperta um debate sobre os critérios adotados pelo governo federal e pelos próprios estados. À primeira vista, parece uma contradição: onde há maior circulação de veículos, maior atividade econômica e maior capacidade de gerar receitas, não há concessões. Já em estados com menor fluxo de tráfego e menor renda, o modelo avança. Mas a explicação passa por fatores técnicos, econômicos e políticos, e não necessariamente por dois pesos e duas medidas.
Os principais pontos são:
• Ceará ficou fora dos leilões. A carteira de concessões do Ministério dos Transportes para 2026 prevê 13 leilões de rodovias em diversos estados, mas nenhum trecho no Ceará. O estado aparece apenas como objeto de estudos para futuros projetos.
• O paradoxo nordestino. O Ceará possui uma economia diversificada, forte setor industrial, turismo consolidado, agronegócio em expansão e um fluxo de veículos superior ao de vários estados da região. Ainda assim, permanece sem rodovias concedidas, enquanto o Piauí já opera concessões estaduais e até regulamenta questões relativas à cobrança de pedágio.
• Viabilidade econômica é determinante. Segundo o Ministério dos Transportes, o modelo antigo de concessões exigia tráfego elevado, investimentos muito altos e tarifas elevadas. A atual estratégia busca adaptar os contratos às características regionais, mas muitos corredores do Nordeste ainda passam por estudos de viabilidade.
• No Piauí, as concessões têm outro perfil. As concessões piauienses estão concentradas em corredores estratégicos para o escoamento da produção agrícola dos Cerrados, especialmente a chamada Rodovia da Soja, cujo modelo combina investimento privado com mecanismos de parceria público-privada e até estudos para isenção de pedágio para veículos leves.
• Falta integração logística no Ceará. Especialistas afirmam que o estado ainda carece de maior integração entre rodovias, ferrovias e grandes corredores logísticos. Obras como o Arco Metropolitano, melhorias no Anel Viário e conexões com a Ferrovia Transnordestina são apontadas como prioridades antes da consolidação de novos projetos de concessão.
• Não é apenas questão de riqueza. Embora o Ceará tenha uma economia mais robusta que a do Piauí, a decisão de conceder uma rodovia depende de estudos sobre demanda, retorno financeiro, necessidade de investimentos, riscos do contrato e interesse do mercado privado. Em alguns casos, estados menos ricos conseguem estruturar projetos específicos considerados mais atrativos para investidores.
Em resumo, a comparação entre Ceará e Piauí mostra que a existência ou não de concessões rodoviárias não depende exclusivamente do tamanho da economia estadual ou do volume de veículos. O Ceará reúne características que, em tese, favoreceriam esse tipo de investimento, mas seus principais corredores ainda estão em fase de estudos e reestruturação. Já o Piauí priorizou concessões voltadas a corredores logísticos específicos, especialmente ligados ao agronegócio. A diferença, portanto, decorre principalmente da modelagem dos projetos, da estratégia de infraestrutura adotada por cada governo e da viabilidade econômica avaliada para cada trecho, e não, necessariamente, de tratamento desigual entre os estados.
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