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Curiosidade MICROBIOMA

Homem de Gelo morreu há 5.300 anos, mas seus micróbios continuam vivos

Estudo revela que fungos e bactérias encontrados na famosa múmia Ötzi sobreviveram por milênios e alguns podem até estar se multiplicando lentamente

10/06/2026 às 10h44
Por: Douglas Ferreira
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Ötzi, o famoso Homem de Gelo - Foto: Reprodução
Ötzi, o famoso Homem de Gelo - Foto: Reprodução

A história de Ötzi, o famoso Homem de Gelo encontrado nos Alpes em 1991, acaba de ganhar um novo e surpreendente capítulo. Um estudo publicado na revista científica Microbiome revelou que parte dos microrganismos presentes na múmia de aproximadamente 5.300 anos não apenas sobreviveu ao passar dos séculos, como alguns deles podem continuar ativos até hoje.

A descoberta transforma a múmia em muito mais do que um corpo preservado pelo gelo. Segundo os pesquisadores, Ötzi funciona como um verdadeiro "ecossistema vivo", onde fungos e bactérias resistiram às condições extremas graças ao congelamento natural que preservou seus tecidos desde a Idade do Cobre.

Micróbios desafiam o tempo

A análise genética realizada pelos cientistas identificou diversos fungos e bactérias tanto na superfície quanto no interior do corpo mumificado. Alguns desses organismos apresentaram características típicas de espécies adaptadas ao frio extremo, semelhantes às encontradas atualmente na Antártica.

O dado mais impressionante é que certos fungos permaneceram viáveis durante milhares de anos. Em vez de simplesmente permanecerem mortos ou fossilizados, eles entraram em estado de dormência, sendo capazes de reativar suas funções quando encontram condições favoráveis.

Os pesquisadores também encontraram evidências de que alguns desses microrganismos podem estar se reproduzindo lentamente em pequenas áreas úmidas existentes dentro da múmia.

Um retrato da saúde humana pré-industrial

Além da curiosidade científica, os micróbios preservados em Ötzi oferecem uma oportunidade única para compreender como era o microbioma humano antes da industrialização.

Os pesquisadores identificaram bactérias intestinais extremamente raras na população moderna, mas ainda encontradas em comunidades que mantêm estilos de vida tradicionais. Isso permite aos cientistas comparar a saúde intestinal de povos antigos com a das sociedades atuais.

Segundo os especialistas, esses dados ajudam a entender como alimentação, urbanização, medicamentos e mudanças ambientais alteraram profundamente a composição do microbioma humano ao longo dos séculos.

Conservação sob vigilância

Desde sua descoberta, Ötzi permanece armazenado no Museu Arqueológico do Tirol do Sul, na Itália, em uma câmara especial mantida a cerca de -6°C e com umidade próxima de 99%, reproduzindo as condições da geleira onde foi encontrado.

Entretanto, a pesquisa levanta um alerta. Alguns fungos identificados possuem genes capazes de degradar matéria orgânica e consumir substâncias usadas na conservação de restos arqueológicos. Embora não existam sinais de deterioração da múmia, os cientistas defendem monitoramento constante para evitar danos futuros.

O que os cientistas encontraram

Entre os principais organismos identificados estão:

  • Bactérias dos gêneros Methylobacterium e Sphingomonas, associadas ao contato humano moderno;
  • Bactérias do gênero Staphylococcus, cuja origem ainda é investigada;
  • Leveduras dos gêneros Glaciozyma, Goffeauzyma, Mrakia e Phenoliferia, associadas a ambientes extremamente frios.

Uma das espécies, a Glaciozyma, chamou atenção por apresentar sinais de possível atividade biológica recente, indicando que o congelamento não impediu completamente sua sobrevivência.

Muito além da morte de Ötzi

Nas últimas décadas, os cientistas descobriram inúmeros detalhes sobre a vida do Homem de Gelo. Sabe-se que ele morreu por volta dos 46 anos após sofrer um ferimento causado por uma flecha no ombro, que provavelmente provocou uma hemorragia fatal.

Também foi identificado que sua última refeição continha carne de veado, íbex, cereais e plantas. Seu corpo exibia 61 tatuagens e sinais de problemas cardiovasculares. Além disso, seu intestino continha a bactéria Helicobacter pylori, associada a gastrites e úlceras.

Agora, os micróbios preservados em seu corpo oferecem uma nova janela para o passado, permitindo compreender não apenas como viviam os seres humanos da Idade do Cobre, mas também como os microrganismos evoluíram ao longo de milhares de anos.

Por que a descoberta é importante?

A pesquisa demonstra que restos humanos antigos podem guardar comunidades microbianas muito mais complexas e resistentes do que se imaginava. Isso pode revolucionar estudos de arqueologia, paleogenética e evolução humana.

Mais do que uma múmia congelada, Ötzi continua funcionando como um laboratório natural capaz de revelar segredos sobre saúde, ambiente e vida microscópica de um mundo que existia há mais de cinco milênios.

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