
A eleição presidencial entra em sua fase decisiva com um dado que merece mais atenção do que a simples liderança de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno. A pesquisa Futura/100% Cidades mostra que o presidente chega a menos de dois meses da votação com 49,9% de desaprovação contra 47,3% de aprovação. A diferença é de 2,6 pontos porcentuais, inferior à margem de erro de 2,2 pontos, o que recomenda cautela na interpretação. Ainda assim, o levantamento revela um cenário politicamente desconfortável para o presidente: Lula lidera a corrida, mas não consegue transformar essa liderança em uma aprovação majoritária de seu governo.
O problema aparece com maior nitidez quando se observa a avaliação qualitativa da administração. 43% dos entrevistados classificam o governo como ruim ou péssimo, enquanto 39,5% o consideram regular e somente 17,1% atribuem as avaliações de ótimo ou bom. O resultado desenha um governo com uma base eleitoral resistente, mas também com uma parcela expressiva da sociedade que não enxerga positivamente sua administração. É uma fotografia de forte divisão do eleitorado, e não a de um presidente politicamente hegemônico.
Na intenção estimulada de primeiro turno, Lula aparece com 38,8%, diante de 34,1% de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado registra 5,9%, enquanto Renan Santos e Romeu Zema aparecem com 3,6% cada. A vantagem de Lula, portanto, é de 4,7 pontos. O número lhe confere liderança, mas está longe de representar uma eleição resolvida. A própria evolução das pesquisas de 2026 mostra que a distância entre Lula e Flávio tem oscilado e que o segundo turno passou a apresentar cenários muito mais competitivos do que no início do ano.
É justamente na rejeição que aparece a parte mais sensível da pesquisa. Quando perguntados em quem não votariam de jeito nenhum, 45,9% apontam Lula, enquanto 47,1% rejeitam Flávio Bolsonaro. A diferença de 1,2 ponto é pequena. Na prática, os dois principais nomes da disputa chegam à reta eleitoral carregando um problema semelhante: possuem eleitores fiéis, mas também enfrentam uma resistência elevada.
Isso muda a natureza da disputa. Uma eleição majoritária não é decidida apenas pela capacidade de um candidato manter seu eleitorado mais fiel. É necessário ampliar a coalizão, conquistar eleitores dos candidatos que ficarem pelo caminho e, sobretudo, reduzir a resistência daqueles que ainda não estão convencidos. Uma rejeição próxima da metade do eleitorado funciona como um limite potencial de crescimento, embora não signifique, automaticamente, que todos esses eleitores votarão no adversário.
O segundo turno deixa essa equação ainda mais evidente. No confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro, a pesquisa aponta 46,5% para Lula e 44% para Flávio, uma diferença de 2,5 pontos, também dentro de uma faixa que exige cautela diante da margem de erro. O dado mais importante, portanto, não é declarar um vencedor antecipadamente, mas reconhecer que a disputa permanece aberta e altamente competitiva.
Há uma característica adicional que merece atenção: a rejeição não é exclusividade de Lula. Flávio Bolsonaro apresenta percentual ligeiramente superior. Isso significa que a eleição pode não ser decidida simplesmente pela escolha do candidato mais popular, mas pela capacidade de cada um de seus adversários de transformar rejeição em voto contrário. Em uma disputa polarizada, o eleitor muitas vezes não escolhe apenas quem prefere; escolhe também quem considera menos indesejável.
É nesse ponto que a pesquisa deixa de ser apenas uma fotografia eleitoral e passa a funcionar como um alerta estratégico para as campanhas. Lula precisa preservar sua liderança sem permitir que a desaprovação se transforme em uma barreira à expansão de seu eleitorado. Flávio, por sua vez, precisa enfrentar o desafio inverso: aproximou-se do presidente na intenção de voto, mas apresenta rejeição ainda maior.
O espaço para uma terceira via continua limitado. Os números mostram que Caiado, Zema e Renan Santos permanecem distantes dos dois primeiros colocados. Isso sugere que, neste momento, o eixo central da eleição continua concentrado em Lula e Flávio. Mas também revela uma oportunidade para quem conseguir romper a polarização e apresentar uma alternativa capaz de atrair o eleitor que não deseja ficar preso à disputa entre os dois principais polos.
A pesquisa também precisa ser lida dentro de seus limites. O levantamento ouviu 2 mil eleitores com 16 anos ou mais, entre 3 e 7 de agosto, em 690 cidades, por telefone, com margem de erro de 2,2 pontos porcentuais e nível de confiança de 95%. Portanto, pesquisa eleitoral não é previsão de resultado. É uma fotografia de determinado momento, condicionada à metodologia e ao período em que as entrevistas foram realizadas.
O que essa fotografia revela, entretanto, é politicamente expressivo: Lula continua competitivo, mas está longe de ser unanimidade; lidera o primeiro turno, mas enfrenta forte rejeição; e chega ao segundo turno, no cenário pesquisado, praticamente colado em seu principal adversário.
A eleição, portanto, começa a adquirir uma característica decisiva: não basta conquistar votos; será preciso administrar rejeições. Quanto mais próximo da metade do eleitorado estiver o contingente que não aceita determinado candidato, maior será a importância do eleitor independente, do voto ainda não cristalizado e da capacidade de cada campanha de convencer quem está fora de sua bolha política.
A pergunta que fica não é apenas quem lidera hoje, mas quem terá capacidade de crescer amanhã.
Porque, em uma eleição tão polarizada, a vantagem de alguns pontos pode desaparecer rapidamente, enquanto uma rejeição elevada pode permanecer como uma espécie de teto eleitoral.
E é justamente por isso que os números da Futura/100% Cidades merecem ser lidos menos como uma fotografia de Lula na liderança e mais como o retrato de uma eleição aberta, polarizada e potencialmente decidida nos detalhes.
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