
O Senado Federal acaba de protagonizar mais um capítulo que desafia a lógica e a transparência pública: decretou sigilo de 100 anos sobre as entradas do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como Careca do INSS, nas dependências da Casa. Sim, você leu certo: um século de silêncio oficial sobre quem ele encontrou, quando entrou, com quem falou, ou a que portas bateu.
A justificativa? A clássica - e já bem desgastada - “proteção de dados pessoais”. A alegação é de que se trata de informação de “caráter pessoal”, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Mas será mesmo?
E o interesse público, onde fica?
Careca é apontado como peça-chave no escândalo bilionário que drenou dinheiro de aposentados, usando descontos consignados forçados e fraudes em massa. Já teve carros de luxo apreendidos, foi visto em gabinetes do poder e, ainda assim, o Senado acha por bem esconder seus passos. Não por 5 anos, nem por 10. Mas por 100 anos. Dá tempo de nascer, crescer, morrer e ainda deixar testamento.
O que o Senado tenta esconder?
A medida, assinada sob silêncio do presidente Davi Alcolumbre, vai de encontro ao que defende a própria Controladoria-Geral da União (CGU), que afirma haver “interesse público na divulgação da relação de pessoas que adentraram nas dependências de órgãos públicos”, especialmente quando há conflitos de interesse ou atos suspeitos. Ou seja, o Senado nadou contra a corrente da transparência e mergulhou de cabeça na lama da suspeita.
Enquanto isso, a Câmara dos Deputados, pasmem, atendeu ao mesmo pedido sem fazer drama. O que ela informou? Que Careca não deu as caras por lá desde 2019. Simples. Transparente. Republicano.
Reuniões fora da agenda e conexões perigosas
O lobista já foi recebido por senadores e integrantes do Ministério da Previdência Social, inclusive em encontros fora da agenda oficial — um velho truque para lavar as mãos depois. O atual número 2 da Previdência, Adroaldo Portal, confirmou ter recebido Careca em março de 2023, embora jure não saber de quem se tratava. “Ele estava acompanhando um representante de correspondente bancário”, disse, como se fosse um transeunte pedindo informação.
Não bastasse isso, Adroaldo é ex-chefe de gabinete de Weverton Rocha (PDT/MA) - que já admitiu ter recebido o lobista ao menos três vezes em seu gabinete. Coincidência? Talvez. Mas Brasília, como todos sabem, é uma cidade onde coincidências costumam custar caro ao contribuinte.
O silêncio ensurdecedor de Davi Alcolumbre
A decisão do Senado de colocar esse véu sobre as visitas do lobista não tem justificativa convincente, tampouco amparo moral. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, segue em silêncio - talvez esperando que, em 100 anos, ninguém mais lembre de quem foi o “Careca do INSS”. Só esqueceram de avisar que o povo não tem memória curta quando o bolso é atacado.
Conclusão: proteção ou pacto de silêncio?
Ao blindar informações básicas que poderiam esclarecer a dimensão do lobby previdenciário em Brasília, o Senado não apenas desrespeita o direito à transparência, como reforça a suspeita de que há muito mais gente envolvida do que se sabe até agora.
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