
Em política, o apoio espontâneo é ouro; o comprado é arriscado; mas o exigido, sob pressão, é sempre traiçoeiro. O governador Rafael Fonteles parece ignorar essa velha máxima ao tentar, a qualquer custo, garantir que prefeitos, vereadores, lideranças e até a bancada federal petista se curvem ao projeto duplo para o Senado em 2026: Marcelo Castro e Júlio César. O problema é que ninguém gosta de ser tratado como gado em curral eleitoral.
Nos bastidores, a estratégia já começou a azedar. Parlamentares do próprio PT se mostram inquietos com a cobrança pública de fidelidade irrestrita a Júlio César. Prefeitos cochicham que aceitar a “dobradinha obrigatória” é pedir demais. Há quem enxergue a exigência do Palácio como voto de cabresto em pleno século XXI. “Não dá para forçar assim. Apoio tem que ser conquistado, não imposto”, disparou um aliado do interior, sob reserva.
E há bons motivos para o desconforto. Marcelo Castro tem um histórico inegável de serviços prestados ao Estado. Júlio César é conhecido como municipalista por excelência. Nenhum dos dois deveria precisar de pressão para angariar votos - o que só revela o despreparo do governo em articular, cultivar alianças e dar tempo ao tempo. Ao invés de plantar e aguardar a colheita, o Karnak quer apressar o ciclo político… e pode acabar colhendo vento.
Para piorar, o PSD já avisou que está com Júlio César - mesmo que o partido rompa com Lula nacionalmente -, mas cobra reciprocidade do PT local. Uma cobrança que, se não for atendida, pode criar um constrangimento desnecessário para Rafael Fonteles. O PSD entregou lealdade, mas quer garantias de que não será traído. No jogo político, ninguém gosta de apostar em cavalo que corre só por um lado da pista.
O próprio histórico recente do Piauí deveria servir de alerta. O ex-governador Wilson Martins tinha o poder na mão, serviço prestado e apoio de prefeitos - e mesmo assim perdeu a eleição. Pressionar demais só criou ressentimento e traição velada. O voto é secreto, governador. Não adianta cercar aliados e achar que eles vão obedecer cegamente. O resultado pode ser exatamente o contrário: alianças frágeis, lealdade só no discurso e um vexame nas urnas.
Política não é ciência exata. E o governador Rafael Fonteles deve saber disso. É química, é arte, é paciência. Quem força demais quebra. Quem pressiona além da medida - e na temperatura errada -, só produz carvão, jamais um diamante. Se a estratégia do Karnak não mudar de tom, é bem possível que a eleição para o Senado se transforme em uma roleta russa política - e alguém vai acabar ferido.
O PSD já deu o recado: agora cabe ao PT aprender que, sem respeito à base, sem conquistar corações e mentes, sem compreender que apoio verdadeiro não se compra nem se exige, só resta o risco de um tiro no próprio pé.
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