
A cena se repetiu, mas desta vez o tom subiu. Pela enésima vez, um ministro do Supremo Tribunal Federal — desta vez Alexandre de Moraes — anulou uma decisão unânime do Congresso Nacional e impôs a sua própria. O alvo? O decreto legislativo que suspendia a alta do IOF promovida pelo governo Lula. Resultado? O aumento do imposto voltou a valer, pela canetada de um único magistrado não eleito por ninguém.
A decisão monocrática de Moraes caiu como uma bomba no Senado. Eduardo Girão resumiu o sentimento de impotência: “É melhor decretar um recesso prolongado, porque o Congresso perdeu a razão de existir”. E não é exagero. A indignação tomou conta do plenário, com discursos contundentes de Esperidião Amin, Carlos Portinho, Izalci Lucas e outros, que escancararam a dura realidade: o Legislativo virou figurante na peça da democracia brasileira.
O que está em jogo não é só a alíquota do IOF. É a essência da separação dos poderes. O Congresso — 594 parlamentares eleitos pelo povo — decide algo por ampla maioria. Um juiz indicado por um presidente decide o contrário. A quem cabe a última palavra? A um colegiado de 11 ministros que só respondem a si mesmos?
A pergunta que ecoa é óbvia e perturbadora: estamos caminhando para um semi-presidencialismo judiciário? Com Moraes à frente, a Corte virou árbitro e legislador ao mesmo tempo, concentrando mais poder que os dois outros poderes somados. Como bem lembrou Amin, nem a Magna Carta de 1215 ousou tanto.
A indignação dos senadores contrastou com o silêncio ensurdecedor dos presidentes da Câmara e do Senado. Davi Alcolumbre e Hugo Motta presenciaram a revolta no plenário, mas ainda não reagiram formalmente. Até quando vão fingir que nada está acontecendo? Até quando vão aceitar que um único homem mande mais que todos eles juntos?
Há quem aposte que o Congresso vai simplesmente engolir mais essa, como já engoliu outras. Afinal, para derrubar a decisão precisariam enfrentar não só o STF, mas também o Executivo que se beneficia da arrecadação extra. Jaques Wagner já avisou: o STF foi provocado e decidiu. Traduzindo: o Executivo e o Judiciário falam a mesma língua, e ao Legislativo cabe aplaudir em silêncio.
Mas será mesmo? Ou desta vez o Congresso reagirá? Os discursos de ontem mostram que a paciência está no limite.
Essa não é apenas mais uma briga de Brasília. É uma encruzilhada para a democracia brasileira. Cada vez que o Congresso se cala, um pouco mais de sua autoridade se esvai. Cada vez que um ministro decide sozinho contra a vontade popular expressa nas urnas, o voto perde valor. E quando isso acontece demais, a democracia morre — mas ninguém percebe.
O Brasil precisa decidir: quer um parlamento soberano ou um tribunal supremo e absoluto? Quer representantes com voz ou um teatro de marionetes?
E, por fim, a pergunta que ninguém responde: quando um único juiz vale mais que 594 parlamentares, de que democracia estamos falando?
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