
O governador Rafael Fonteles (PT) nega em público, mas já está jogando pesado nos bastidores para garantir que a base aliada feche 100% com os dois nomes que o Palácio de Karnak colocou em campo para o Senado: Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD).
Nada de dividir a bola. Nada de um para lá, outro para cá. O plano é simples - e ousado: prefeitos, vereadores e lideranças têm que derramar todos os votos nos dois nomes do governo. Como se os aliados não tivessem memória nem gratidão para dividir.
É aqui que mora a grande contradição. Fonteles parece ignorar que no caminho do Karnak não há apenas uma pedra, mas um verdadeiro lajeiro. Um lajeiro chamado Ciro Nogueira (PP). E esse lajeiro pesa.
Ciro Nogueira não é apenas um senador. É um político que, ao longo de anos, costurou relações município por município, prefeito por prefeito, vereador por vereador. Ele não conhece o Piauí só de mapa; conhece de calçamento em calçamento.
Prefeitos que hoje estão com Rafael reconhecem - entre quatro paredes - que têm mais a agradecer a Ciro do que ao próprio governo estadual.
E a política é feita de gratidão. Um prefeito do Norte do Estado resumiu bem o dilema:
“Se o governador fez, Ciro também fez. Votar nos dois do governo? Aí já é exigir demais”.
O plano do governador é legítimo. Ele quer consolidar uma base coesa para defender o governo federal no Senado, antecipando o que já se anuncia como uma disputa plebiscitária em 2026: Lula versus oposição. Se a oposição fizer maioria no Senado, o consórcio Executivo-Judiciário corre risco de desarticulação.
O problema é querer que cada liderança entregue dois votos para o Palácio. Um voto já é difícil. Dois beira o impossível. Como lembrou o mesmo prefeito: em política, um voto é pouco, dois é bom, três é demais.
A exigência do Karnak, neste ponto, soa mais como imposição do que articulação.
Essa é a pergunta de um milhão. Ou melhor, de milhões em emendas, convênios, obras e gratidão. Ciro Nogueira não vai abrir mão fácil do capital político que construiu ao longo de décadas no Piauí.
A antecipação da campanha por parte de Rafael é inevitável. Ele vai botar o bloco na rua, com Wellington Dias como maestro. Mas convencer prefeitos a ignorar tudo o que Ciro já fez e fechar integralmente com os dois nomes do governo não será tarefa fácil.
A memória política dos municípios é maior do que o governador parece supor.
Rafael Fonteles faz bem em organizar seu “time” e antecipar o jogo. Mas seu discurso de unidade total beira a soberba e ignora o fato político mais importante do Piauí: Ciro Nogueira ainda é o maior fiador de prefeitos e vereadores no estado.
Um voto para a base? É provável. Dois votos? Improvável.
E a política, como se sabe, não perdoa quem força demais a mão. Aí o caldo pode "entoldar".
Em 2026, Fonteles pode descobrir que no Piauí não basta ter time em campo. É preciso lembrar que, para muitos prefeitos, Ciro já ganhou o campeonato antes mesmo do apito inicial.
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