
Mais uma vez, o Brasil acorda diante de uma cena conhecida - e cada vez mais repulsiva. No Ceará, a Polícia Federal escancarou o que muitos já sabiam nos bastidores: as chamadas emendas parlamentares, apresentadas ao eleitor como instrumento de “justiça social” e “desenvolvimento regional”, viraram um negócio milionário para deputados inescrupulosos. A operação que mira o deputado federal Júnior Mano (PSB) e aliados mostra como se articula uma engrenagem criminosa que rouba a população por dentro, usando as próprias instituições que deveriam servi-la.
O caso de Júnior Mano é apenas a ponta visível de um iceberg de lama. Eleito pelo PL, expulso por infidelidade após apoiar um candidato petista e hoje socialista, ele teria canalizado milhões em emendas para prefeituras aliadas, que fraudavam licitações para devolver o dinheiro ao esquema. A PF e a CGU já bloquearam mais de R$ 54 milhões, mas é ingenuidade acreditar que o rombo termine aí. A engrenagem é muito maior - e envolve prefeituras, empresas de fachada, servidores, contratos superfaturados e corrupção eleitoral.
E é impossível ignorar que outro nome ventilado nos corredores de Brasília é ainda mais pesado: José Guimarães (PT), líder do governo Lula na Câmara, já figurou como investigado em esquemas semelhantes. A lógica é sempre a mesma: parlamentares controlam a destinação das verbas para pequenos municípios que dependem de cada centavo da União. Lá, licitações são simuladas, contratos são assinados com empresas laranjas e milhões evaporam - enquanto ruas continuam esburacadas, escolas sem merenda e hospitais sem médicos.
Como aceitar que as mesmas mãos que juram defender “os pobres” diante das câmeras se ocupem de pilhar as cidades mais vulneráveis do país? Como aceitar que dinheiro suado de impostos sirva para financiar a próxima campanha de quem já foi eleito para servir?
A sociedade brasileira precisa reagir a essa lógica criminosa das emendas parlamentares - um sistema que, da forma como funciona hoje, premia a impunidade, alimenta currais eleitorais e transforma a política em negócio. Não há “governabilidade” que justifique essa indecência.
Não basta mais lamentar ou esperar que a PF faça seu trabalho. É preciso pressionar para que o Congresso reforme as regras das emendas, para que os Tribunais de Contas façam seu dever e para que os prefeitos cúmplices sejam punidos junto com os deputados que os comandam.
Enquanto os olhos da sociedade permanecerem fechados, as prefeituras do interior continuarão sendo tratadas como caixas eletrônicos para bancar campanhas milionárias em Fortaleza, Brasília e além.
A Polícia Federal aponta que o parlamentar cearense, que já foi o mais votado no Estado, e cuja esposa é prefeita de Nova Russas, como o líder de uma organização criminosa especializada em lavagem de dinheiro e compra de votos. A esposa dele não é investigada nesta operação da PF.
O Brasil está cansado de ser roubado pelos seus próprios representantes. E se não nos indignarmos agora, amanhã estaremos todos cúmplices por omissão.
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