
A cena poderia ilustrar um daqueles contrastes tão comuns na política brasileira: um presidente da República caminhando pela favela, ouvindo moradores, prometendo dignidade para famílias invisíveis ao Estado há décadas. Mas, no caso da visita de Lula e Janja à Favela do Moinho, em São Paulo, no fim de junho, o que está em jogo vai além de boas intenções - e coloca em xeque os limites éticos da interlocução entre governo e comunidades dominadas pelo crime organizado.
Documentos revelados pelo portal Metrópoles mostram que a agenda do presidente e da primeira-dama foi articulada com a Associação da Comunidade do Moinho, presidida por Alessandra Moja Cunha, irmã de Leonardo Monteiro Moja, o “Léo do Moinho” — preso como líder do tráfico local. Mais do que isso: a ONG usada como ponte entre o Palácio do Planalto e a favela já foi alvo de operação policial por armazenar drogas do PCC.
A presidente da Associação da Comunidade do Moinho, Alessandra Moja Cunha
Por que Lula e Janja tiveram que ir pessoalmente a uma comunidade dominada pela maior facção criminosa do país? Por que a solução habitacional para as famílias do Moinho precisou passar por uma entidade presidida por uma condenada por homicídio e vinculada a um dos chefes do tráfico paulista?
A Presidência justifica: “a interlocução com representantes comunitários é prática essencial de qualquer governo que atue com políticas públicas voltadas à inclusão social, moradia e promoção da dignidade”. Verdade. Mas até que ponto essa interlocução pode ser feita com lideranças que servem aos interesses de um grupo criminoso como o PCC? Quando essa “inclusão” se confunde com legitimar o poder paralelo imposto às famílias que lá vivem?
Na Favela do Moinho, como aponta o próprio Ministério Público, vigora a omertà: o código de silêncio das máfias, em que quem desafia o poder local paga com a vida. Moradores relatam ameaças de morte ao aceitarem ajuda para se mudar. É com essa gente que o governo sentou-se para negociar a paz social - e posar para fotos sorridentes.
Não basta dizer que a “liderança apresentada como porta-voz da comunidade é idônea”. Idoneidade e tráfico de drogas não cabem na mesma frase. Não basta alegar que a segurança da comitiva foi “rígida”. A questão aqui não é apenas protocolar, mas simbólica: qual mensagem se transmite a uma sociedade cansada de ver o crime organizado dobrar o Estado quando o próprio presidente se ajoelha, ainda que de maneira velada, diante dele?
Governar é ter coragem de dizer não ao poder paralelo, ainda que isso custe votos e manchetes simpáticas. É claro que as famílias do Moinho merecem dignidade. Mas nada justifica que se abra mão da legalidade e se aceite como “interlocutora legítima” uma ONG usada como armazém de cocaína e chefiada por quem já assassinou alguém a facadas.
Essa visita deixa uma ferida: a sensação de que, mais uma vez, a política oficial cedeu à política do medo. Que, em vez de enfrentar o crime organizado, preferiu conversar com ele por intermédio de quem o representa, direta ou indiretamente.
O Brasil não pode continuar se acostumando a ver Estado e facção sentados no mesmo balcão. Se o poder público não consegue entrar na favela sem a permissão do tráfico, então já não é mais poder. É refém.
O Moinho não pode ser só mais um capítulo dessa história de capitulação. E Lula, com toda sua experiência, deveria saber que inclusão social verdadeira não se faz rendido ao crime - mas apesar dele.




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