
Em política, gratidão é artigo raro - e o vice-governador Themístocles Filho (MDB) começa a perceber isso com clareza cirúrgica. Preterido na disputa pela vaga de vice na chapa de reeleição de Rafael Fonteles (PT), o veterano político piauiense,MDB raiz, agora se vê como a peça mais desejada do tabuleiro político do Estado. E não é por acaso: com trajetória sólida, votos consistentes e habilidade rara de articulação, Themístocles atrai olhares até da oposição mais ferrenha ao governo petista, liderada pelo senador Ciro Nogueira (Progressistas).
Em entrevista recente, Ciro foi direto ao ponto:
“Se vier para a oposição, será muito bem-vindo. Ele tem tamanho para qualquer cargo”.
Não é só um gesto de cortesia institucional - é uma sinalização clara de que a oposição quer, precisa e valoriza o capital político de Themístocles Filho. Uma moeda que está escassa no atual governo, diga-se de passagem.
Enquanto isso, no Palácio de Karnak, o governador Rafael Fonteles flerta com a velha e desgastada ideia de chapa pura, insistindo no delírio de repetir o “puro sangue” que já custou caro ao PT no passado. A mesma estratégia cometida por Wellington Dias em 2018, quando Themístocles, já então cotado para a vice-governadoria, foi escanteado na última hora, no último segundo, no apagar das luzes, para dar lugar a Regina Sousa. Uma traição silenciosa, mas dolorosa. Agora, o filme se repete, com novos atores, mas o mesmo roteiro amargo de ingratidão e prepotência política.
A dúvida que paira no ar: de que adianta um governo "puro" se está descolado da realidade do povo? O PT do Piauí parece ter, "se fechado em copas", se trancado numa "bolha" recheada de egressos do Dom Barreto - onde “gogó” vale mais que voto, e reuniões com assessores na Estônia pesam mais do que articulação com prefeitos e vereadores no sertão.
Themístocles, ao contrário, tem voto, tem território e tem história. Não se trata de figura decorativa ou suplente eventual. Ele carrega consigo a terceira maior prefeitura do Norte do Piauí, dois mandatos parlamentares - estadual e federal - e o reconhecimento de ser, até entre adversários, um político conciliador, moderado, um “pacificador” num cenário contaminado por vaidades.
Fonteles pode até ter subestimado o peso do vice, mas a oposição não comete esse erro. Ciro sabe que a entrada de Themístocles muda toda a lógica da eleição de 2026. O gesto de março - o encontro informal entre ambos, em Brasília - já foi um aviso. E agora, com a sinalização pública, o MDB pode, sim, virar o fiel da balança em uma nova coalizão que desafie a hegemonia petista no Estado.
O silêncio do vice-governador até agora não é hesitação. É cálculo. Um político como ele não reage por impulso. Mas quando falar, sua decisão será decisiva - e terá repercussão até nacional.
A dúvida que fica para Rafael Fonteles e seu staff é: Será que valeu a pena ignorar o maior quadro de equilíbrio político do Estado em nome de uma aposta pessoal?
A resposta pode começar a surgir já na próxima segunda-feira (30), quando Themístocles deve se manifestar na reunião do diretório estadual do MDB. Seja qual for a posição, uma coisa é certa: ele não ficará só. Quem tem voto, prestígio e palavra, sempre terá lugar à mesa.
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